Não cabe agora discutir se as medidas que o governo adotou há poucos meses, na tentativa de reduzir a valorização cambial, e por meio do artifício cambial garantir um ganho de produtividade extra por meio da taxa de câmbio era a mais adequada. Não cabe diagnosticar a doença após a morte do paciente, ou seja, o IOF ampliado (6,5%) para compras no exterior com cartões de crédito e para a compra de moeda estrangeira é um fato. Do outro lado, o dólar saltou de R$ 1,55 para R$ 2,05 nesses últimos meses, isso é outro fato. Resta entender quais os efeitos disso sobre um mercado específico, muito afetado por essas mudanças: o mercado de Turismo.
Para o setor, é claro que, ao menos no médio prazo, está mais caro ir para o exterior, do que viajar pelo Brasil. Isso para brasileiros e para estrangeiros que viram suas moedas ganharem espaço frente ao real nos últimos meses. Ou seja, de uma forma economicista de se analisar, o produto brasileiro “turismo” está mais competitivo em relação ao produto “turismo” estrangeiro. Vamos exportar mais turismo e importar menos, ao longo dos próximos meses, ao menos em tese.
A variável cambial e o aumento dos custos de pacotes e compras externas por conta do IOF é muito relevante para a decisão dos consumidores (nesse caso, turistas), mas não é a única. O efeito existe e certamente vai reduzir o déficit potencial nas contas de turismo do País, mas não é decisivo como foi anos atrás. A renda, o crédito, as facilidades em se parcelar pacotes, a concorrência entre hotéis, a estrutura interna e externa de turismo também fazem parte dessa equação.
Feliz ou infelizmente, a variável cambial não é mais tão decisiva, apesar de importante. Na realidade, esperamos que o recente ganho de competitividade do turismo interno, dado pelas condições cambiais e de instrumentos como o IOF, não sirvam para mascarar as deficiências internas relativamente às condições gerais de infraestrutura internacionais, principalmente no receptivo. Esperamos que o segmento de hotéis, lazer e serviços vinculados ao turismo no Brasil tenham um desempenho melhor por conta do fenômeno cambial recente e pelo aumento de custos das compras externas. Mas também esperamos que o País não deixe de investir em segurança, em infraestrutura hoteleira, em formação de mão de obra de serviços, que em última análise garantem a competitividade do setor no longo prazo. Ainda é necessário que o Brasil avance em políticas que garantam nossa competitividade na produção nacional, dado que mesmo com a desvalorização de 20% a 25% do câmbio- ocorrida nos últimos 2 ou 3 meses- comprar em Miami ainda continua a ser um grande negócio, por conta dos tributos, dos custos exagerados e de todos os problemas de competitividade que vão muito além da paridade cambial ou de um aumento de IOF para compras internacionais.
No curto prazo os efeitos são positivos para o equipamento de turismo instalado no País, aumentam o fluxo de viajantes brasileiros no Brasil e atraem novos turistas estrangeiros com o real sendo uma moeda relativamente mais fraca. De outro lado, esses fenômenos recentes reduzem a demanda por viagens internacionais nas agências de turismo daqui – esse é talvez o único traço negativo de curto prazo na demanda por serviços nacionais. É um bom momento para o turismo interno, e um momento menos auspicioso para o turismo internacional, mas, como já avaliado, esses artificialismos têm limite e não substituem as reformas e investimentos na caminhada para que se consolide definitivamente o setor de turismo do Brasil como um dos grandes polos econômicos e ainda pouco utilizado, dado todo o potencial que nosso País oferece.