Editorial

07/12/2018

Como será o sindicato na revolução 4.0?, por José Pastore

Os sindicatos laborais vêm perdendo filiados em quase todos os países por causa da entrada maciça de novas tecnologias no sistema produtivo

Como será o sindicato na revolução 4.0?, por José Pastore

Mudança é desafio para os empregadores que estão acostumados a lidar com dirigentes sindicais de carne e osso
(Arte: TUTU)

Por José Pastore*

Bolsonaro ganhou a eleição com base no telefone celular. Donald Trump fez a mesma coisa em 2016. Paris ficou em chamas na última semana devido a um movimento capitaneado pelo WhatsApp. Em artigo interessante, a revista The Economist especula que os próprios sindicatos poderão recobrar seu fôlego com base na comunicação entre trabalhadores via redes sociais (“Workers of the world, log on!”, TheEconomist, 17/11/2018). Em quase todos os países, os sindicatos laborais vêm perdendo filiados por causa da entrada maciça de novas tecnologias no sistema produtivo. Estas provocam uma fragmentação das empresas e desconcentração dos trabalhadores.

O artigo sugere que, com a ajuda das redes sociais, os trabalhadores poderão se reorganizar em torno de seus sindicatos e, com isso, pressionar os empregadores por melhores condições de trabalho.

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Afinal, cerca de 60% dos trabalhadores dos países avançados já conversam entre si dessa forma e com muita frequência. Nessas conversas, eles coletam informações e “bolam" formas de pressão sobre as empresas. Esse é o caso, por exemplo, de motoristas de Uber dos Estados Unidos que detonaram uma campanha que gerou melhores rendimentos, novos benefícios e proteções no trabalho.

Outros exemplos recentes são a greve bem-sucedida de 25 mil professores no estado de West Virginia (EUA) e o movimento dos atendentes da rede de café Starbuck que conseguiram afastar medidas de discriminação impostas pela empresa. Em 2016, o sindicato de gás e eletricidade de Baltimore mobilizou mais de 20 mil trabalhadores em uma greve vitoriosa via redes sociais. No mesmo ano, o sindicato dos empregados da empresa Verizon conseguiram aumentos salariais substanciais do mesmo modo.

Ocorre que nem tudo são flores nesse campo. Os movimentos deflagrados pelo WhatsApp e outras mídias sociais são ondas difusas e sem lideranças identificáveis. Para os empregadores que estão acostumados a lidar com dirigentes sindicais de carne e osso, esse é um enorme desafio. Eles terão de apreender a dialogar com tais movimentos, pois eles comprometem muito a imagem das empresas. Convém lembrar a “greve dos caminhoneiros” (2018) realizada de forma relâmpago e eficiente por meio do WhatsApp. Os ativistas alcançaram muitos dos seus objetivos porque governo, empresários e consumidores ficaram encurralados sem saber como negociar com os manifestantes.

O mesmo ocorreu no citado movimento de Paris nesta semana. A França cogitou decretar estado de sítio tamanho foi o desespero dos governantes. No início, o movimento protestou contra o aumento dos combustíveis, mas logo evoluiu para o alto custo de vida e para questões tributárias. Em que adianta um estado de sítio para lidar com movimentos difusos e sem lideranças? Manuel Castells há vários anos vem prevendo que as redes sociais serão o meio de decisões econômicas e políticas de grande alcance na sociedade moderna, deixando claro que ignorá-las é tão perigoso quanto confrontá-las com armas antigas (Manuel Castells, A Sociedade em Rede, Editora Paz e Terra, 2015).

Se essa estratégia ainda não adentrou nos sindicatos do Brasil, não significa que não venha a pegar no futuro. O Presidente da CUT, Vagner Freitas, assim analisa a situação brasileira: “... o maior problema do líder sindical atual não é dinheiro, mas ter dificuldade para ouvir as massas. Os trabalhadores estão cada vez mais pulverizados, e não concentrados num único local, dificultando a abordagem dos representantes sindicais e uma ação conjunta. Nosso desafio é organizar os trabalhadores de forma mais racional e menos fragmentada (“Crônica do trabalho: no olho da rua", Revista Época, 15/11/2018).

Em decorrência do término da contribuição sindical obrigatória, os sindicatos laborais foram desafiados a se reorganizar. É nessa reorganização que podem emergir as mobilizações de trabalhadores pela via das redes sociais. Afinal, o Brasil não está fora do mundo.

*José Pastore é Presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP
Artigo originalmente publicado no jornal Correio Braziliense no dia 07 de dezembro de 2018.