Negócios

21/01/2016

Legislação nacional prevê acessibilidade em viagens e eventos corporativos

Com maior número de viajantes a negócios no País, estabelecimentos precisam estar preparados para atender as pessoas com deficiência

Legislação nacional prevê acessibilidade em viagens e eventos corporativos

Estado recebe 80% das grandes feiras e eventos do Brasil, enquanto a capital paulista é destino de 16,4% dos turistas estrangeiros de negócios 
(Arte/TUTU)

Por Jamille Niero

Sancionado em julho de 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2016) prevê, entre outros pontos, que construção, reforma ou ampliação de edificações em todo o País, públicas ou privadas de uso coletivo, deverão ser executadas de modo a garantir que a pessoa com deficiência possa acessá-las em todas as suas dependências e serviços. A legislação define ainda que a concessão e a renovação de alvará de funcionamento para qualquer atividade são condicionadas à observação e à certificação das regras de acessibilidade.  

São regras que valem também para a realização de eventos corporativos em espaços destinados para esse fim e locais que recebem viajantes a negócios. 

Segundo os Indicadores Econômicos das Viagens Corporativas (IEVC), organizado pela Associação Latino Americana de Gestores de Eventos e Viagens Corporativas, as viagens corporativas geraram 752 mil empregos diretos e indiretos em 2014 e movimentaram um volume de negócios de mais de R$ 75 bilhões, considerando as receitas com aéreo, hospedagem, alimentação, agenciamento, tecnologia e locação de imóveis. 

O Brasil é hoje o nono país que mais sedia eventos internacionais, com 315 eventos realizados em 2013, de acordo com a Associação Internacional de Congressos e Convenções (ICCA, na sigla em inglês).

Apenas o Estado de São Paulo recebe cerca de 80% das grandes feiras e eventos do Brasil (de acordo com a Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo), enquanto a capital paulista é destino de aproximadamente 16,4% dos turistas estrangeiros de negócios e eventos no Brasil (dados da FGV). 

Atender à tamanha demanda exige adaptações. Para o Conselho Executivo de Viagens e Eventos Corporativos da FecomercioSP, no setor de viagens, tanto de lazer como corporativo, toda a cadeia produtiva (hotéis, companhias aéreas, empresas de transporte e demais) precisa estar preparada para receber bem o hóspede com deficiência. “A escolha do fornecedor certamente será feita mediante a sua condição (ou não) em dar atendimento e infraestrutura/serviços específicos. Fornecedores que não se enquadram ficam de fora, independentemente de oferecerem melhor custo ou qualidade de serviço”, aponta a assessora executiva do conselho, Carolina Negri, que ressalta não se tratar somente de adaptações na estrutura física, mas também da qualificação dos funcionários que interagem com esse hóspede. 

Uma das pioneiras no segmento, a Rede Hotel 10 incluiu a acessibilidade – em apartamentos e áreas comuns – desde a concepção do primeiro hotel, há dez anos. Com unidades em Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul e duas em construção (uma em Palmas, no Tocantins, e a outra em Lorena, no interior de São Paulo), a rede oferece de uma a seis unidades acessíveis por endereço. Cada uma é planejada com a orientação de escritório de arquitetura, segundo as leis de específicas de cada município. 

O diretor da rede, Bruno Linzmeyer, conta que a preocupação com o cliente, viajante a lazer ou a negócios, é um diferencial da empresa. “As filiais são idênticas, com tudo padronizado. Atendemos o hóspede de turismo e lazer também, principalmente nas férias, mas durante o resto do ano a maioria dos clientes é viajante a negócios”, diz. 

Linzmeyer conta que das 3 mil diárias disponíveis por mês para receber os hóspedes em um empreendimento, a demanda pelos espaços adaptados é de 2% a 3%. Para esse ano, o diretor comenta que a meta é expandir a acessibilidade para outras áreas. “Nossa programação interna prevê desenvolver mais itens em braile. Já temos nos elevadores e queremos expandir para os cardápios”, diz. 

Preparo
Ao notar o despreparo dos estabelecimentos (como os hotéis) que recebem viajantes com deficiência, o fundador da Turismo Adaptado – empresa especializada em turismo acessível – desenvolveu o Programa de Acessibilidade Hoteleira. Roberto Shimosakai conta que o programa foi elaborado para atender às necessidades de pessoas com diferentes tipos de deficiência (física, visual, auditiva e intelectual), mobilidade reduzida (idosos, obesos, gestantes) e necessidades específicas (hipertensos pulmonares, pacientes de hemodiálise) em todas as áreas que compõem um ambiente hoteleiro. São aplicados quatro pontos importantes: acessibilidade arquitetônica, tecnologia assistiva, hospitalidade inclusiva e informação para todos. 

“Pensamos nisso justamente por falhas e erros nos estabelecimentos e porque vemos a decepção do empreendedor, que gastou dinheiro e se esforçou e nunca recebeu pessoas com deficiência. Mas mostramos o que pode ser feito.”

Shimosakai também aponta que, apesar de os empreendedores muitas vezes terem a iniciativa de fazer as reformas (o que é positivo), acabam mudando por conta própria e as novidades não são adequadas. Por isso, ele destaca a necessidade de contratar profissionais especializados para não cometer erros nem desperdiçar dinheiro.