Editorial

02/03/2018

Tecnologia, demografia e trabalho, por José Pastore

Presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP afirma que países como o Brasil terão de mudar seu sistema de aposentadoria

Tecnologia, demografia e trabalho, por José Pastore

Qual é o sistema previdenciário que aguentará aposentar pessoas aos 65 anos e mantê-las como dependentes até os 95?, questiona Pastore
(Arte: TUTU)

Por José Pastore

O mundo do trabalho passa por transformações dramáticas. Com a entrada acelerada de novas tecnologias nos processos de produzir e vender, empregos e atividades são destruídos, criados e transformados. No nível micro, a adoção de robôs provoca a dispensa de trabalhadores. Mas, no nível macro, os ganhos de produtividade decorrentes daquela adoção provocam aumento de lucros e de investimentos, o que gera empregos em outras áreas. E, nos dois casos, as profissões e as atividades deslocadas pelas inovações tecnológicas passam por enormes transformações.

Os primeiros estudos sobre o assunto criaram grande ansiedade por mostrarem uma pavorosa destruição das profissões decorrente da adoção de robôs, inteligência artificial, impressão 3D, big data e outras inovações tecnológicas do mundo atual. Estudos posteriores e mais acurados mostraram que as profissões continuarão no futuro, mas as atividades realizadas pelos profissionais serão diferentes por força das novas tecnologias.

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Ou seja: as novas tecnologias destroem, criam e transformam profissões e atividades. O grosso das mudanças ocorre no terreno das transformações e não da destruição ou criação. Mais do que isso, as principais mudanças ocorrem dentro das profissões e não entre elas. Se, por um lado, isso trouxe um alento em relação aos primeiros estudos, por outro, adicionou enorme desafio para as sociedades modernas, qual seja, o de criar mecanismos para ajustar os seres humanos nas atividades que mudam dia a dia por força das modernas tecnologias. O desafio é enorme. É claro que parte dele pode ser enfrentada com uma melhoria substancial da educação básica, nos terrenos da linguagem, matemática e ciências que formam a base do pensamento.

Mas isso não é suficiente, porque as escolas convencionais não conseguem acompanhar a velocidade meteórica das mudanças tecnológicas. Surge, então, a busca do ensino profissional que tem mais velocidade. Mas, mundialmente, o ensino profissional carece de escala, pois esse tipo de educação é complexo, exige equipamentos e profissionais bem treinados, o que limita o alcance das matrículas e conclusões.

Para contornar os dois problemas—lentidão das escolas convencionais e curto alcance das escolas profissionais—.surgiram as soluções do ensino virtual que é ministrado a grandes massas e com velocidade compatível com as mudanças tecnológicas. Essa é a esperança do futuro, sem prejuízo da necessidade de melhorar a educação básica e ampliar o ensino profissional.

Mas mudanças velozes não se limitam ao mundo da tecnologia. As sociedades também estão envelhecendo velozmente. Estudos demográficos bastante robustos mostram que, entre as crianças que nascem hoje na Europa, 50% viverão até 105 anos. Entre os jovens que têm 30 anos, 50% viverão até 97 anos e com saúde.

A pergunta é a seguinte: O que acontecerá com as pessoas que viverem até 95 anos cuja poupança termine aos 70 anos? Qual é o sistema previdenciário que aguentará aposentar pessoas aos 65 anos e mantê-las como dependentes até os 95? É inexorável. Os idosos saudáveis terão de trabalhar por mais tempo e no mundo digital, com uma imensidão de tecnologias diferentes a que nunca tiveram acesso. O desafio, portanto, será não apenas preparar os jovens, mas também os idosos. Muitos países avançados já investem pesadamente na simplificação dos tablets e outras inovações e novas formas de treinamento para facilitar a inclusão dos idosos.

À luz de tantos cenários desafiadores, tudo indica que países como o Brasil terão de mudar seu sistema de aposentadoria e treinamento de forma radical. A reforma da Previdência, hoje rejeitada por estabelecer a idade mínima de 65 anos, terá de ser rediscutida com idade mínima progressiva, com início aos 67 ou 69 anos, junto com sistemas de treinamento para ajustar os brasileiros às enormes transformações das profissões e das atividades que vêm pela frente.

* José Pastore é Presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP
Artigo originalmente publicado no jornal Correio Braziliense no dia 2 de março de 2018