Economia
09/09/2026A transformação silenciosa da China: país deixou de ‘copiar’ para liderar a revolução tecnológica
Estado asiático combinou estratégia de longo prazo e aprendizado com o Ocidente para inovar na Indústria, no Comércio e nos Serviços
A China é, hoje, referência em inovação. O país concentra cerca de um terço da produção mundial e possui Produto Interno Bruto (PIB) per capita até 30% superior ao do Brasil. Mas a história nem sempre foi essa. Em 1975, o PIB chinês equivalia a praticamente um décimo do brasileiro. O que explica, então, o novo patamar do país asiático?
Segundo Rodolfo Fücher, vice-presidente de Relações Institucionais do Instituto Brasil Digital e membro do Conselho de Economia Digital e Inovação da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), a chave para entender o avanço chinês nos últimos 50 anos está na visão estratégica do país e na busca constante por conhecimento.
Inspirada nos planos de longo prazo para a reindustrialização da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), desde 1953 a China vem implementando planos de desenvolvimentos econômico e social, com focos reavaliados pelo governo a cada cinco anos. O país combinou a própria tradição de organização social, educação rigorosa e disciplina coletiva com uma visão estratégica promovida pela ciência para construir a tecnologia do século 21.
“A China mostrou claramente que, apesar de toda essa cultura milenar, não tem conflito com a inovação”, comentou Fücher, durante reunião do conselho, realizada em 28 de agosto. De acordo com ele, o Estado chinês entendeu que investir em ciência e tecnologia seria uma forma de garantir crescimento socioeconômico para o país, com ganho de produtividade e geração de renda.
Mais do que uma revolução tecnológica, contudo, a China apostou na transformação humana, retirando mais de 800 milhões de pessoas da extrema pobreza, o que contribuiu para construir um enorme mercado consumidor. Entre 1978 e 1980, durante a sua abertura econômica, o país enviou mais de 8,8 milhões de cidadãos para estudar em universidades europeias e norte-americanas. Desse grupo, pelo menos 6 milhões retornaram ao país, aplicando o conhecimento adquirido do exterior.
Competir com a China é competir contra um ecossistema
Se, durante muito tempo, a China foi vista como um país que copiava tecnologias de outras nações, a realidade é que esse período também serviu para que o país compreendesse como estas funcionavam e, posteriormente, desenvolvesse iniciativas próprias. Com mão de obra barata e políticas que facilitaram a instalação de fábricas, a China passou a atrair empresas estrangeiras interessadas em produzir no país para exportar. Ao mesmo tempo, empresas chinesas começaram a ser contratadas para fabricar produtos de marcas internacionais, consolidando a nação asiática como a “fábrica do mundo”.
Hoje, o país se destaca pela capacidade de produzir em larga escala, com rapidez e crescente sofisticação tecnológica. O governo define prioridades estratégicas, enquanto universidades, capital, mercado, empresas e fornecedores atuam de forma articulada para desenvolver e levar essas tecnologias ao mercado.
O vice-presidente do Instituto Brasil Digital acredita que é preciso uma mudança de percepção quando refletimos sobre os fatores que explicam a competitividade do país. “Não estamos competindo com uma empresa chinesa, mas com todo um ecossistema que se formou atrás daquele produto ou serviço que está vindo da China”, apontou ele.
Para onde a China está olhando agora?
Entre 2006 e 2010, o país asiático investiu em ciência e infraestrutura, com o objetivo de desenvolver capacidade tecnológica própria. Em 2011 e 2015, o foco passou a ser a manufatura avançada, com investimentos em indústrias estratégicas e novos setores.
Já entre 2016 e 2020, a inovação esteve no centro da estratégia, com destaque para Big Data, computação em nuvem, Internet das Coisas (IoT) e Internet Plus. De 2021 a 2025, o país passou a olhar para a economia digital, com ênfase em dados e digitalização industrial.
Agora, a China colocou a Inteligência Artificial (IA) como uma infraestrutura transversal a toda a economia. Na prática, isso significa incorporar a IA à manufatura, com fábricas inteligentes e produção autônoma, e ao Comércio, com experiências digitais e cadeias de suprimentos mais eficientes. Além disso, na saúde, diagnósticos mais precisos e medicina personalizada; nas finanças, com análise preditiva e gestão de riscos; e na agricultura, com monitoramento de clima e solos e aumento da produtividade, entre outros casos.
Atualmente, Pequim concentra o desenvolvimento de ciência e IA; Xangai, capital e mercado; Hangzhou, dados e economia digital; e Shenzhen, engenharia e manufatura.
Brasil: parceiro estratégico
O avanço expressivo da China também faz refletir sobre as oportunidades para o Brasil. De acordo com Fücher, o país é extremamente importante para o gigante asiático. Enquanto a China concentra capacidades em áreas como IA, robótica, manufatura e produção em escala, o Brasil se destaca pela produção de energia limpa — um dos pontos estratégicos para os planos de desenvolvimento chineses e para seus objetivos relacionados à redução das emissões de carbono.
Mas a relação entre ambos não se resume à produção. Fücher ressaltou que o Brasil também pode representar um elo para empresas e serviços chineses interessados em alcançar outros mercados. “Graças ao recente acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o Brasil pode ser uma ponte a empresas e serviços chineses chegarem até a comunidade europeia”, afirmou.
Para se ter uma ideia desse potencial, o Mercosul reúne cerca de 260 milhões de pessoas e movimenta, aproximadamente, US$ 3 trilhões em PIB. Na América Latina, o mercado potencial alcança 650 milhões de pessoas e um PIB estimado entre US$ 6 trilhões e US$ 7 trilhões. A União Europeia amplia as perspectivas de integração com um mercado de cerca de 450 milhões de pessoas e PIB de aproximadamente US$ 18 trilhões.
Contudo, na visão do conselho da FecomercioSP, mais do que do que ser um parceiro estratégico, o Brasil poderia se inspirar no exemplo chinês de planejamento e visão de longo prazo. “Se olharmos para a história do País, nós praticamente fizemos o que a China está fazendo. É o caso da Embraer”, citou o conselheiro, ao explicar que para a criação da empresa também houve um processo de busca por conhecimento no exterior, com professores sendo trazidos para cá. “Quer dizer, nós temos um modelo, sabemos fazer. Eu acho que é uma questão muito mais de foco, planejamento e, obviamente, desejo político”, concluiu.