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Editorial

Copa 2026, bets e turismo

Mundial pode intensificar disputa pelos recursos destinados ao lazer

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Copa 2026, bets e turismo

Guilherme Dietze* 

A Copa do Mundo de 2026 está prestes a se tornar o maior evento de apostas esportivas da história. Segundo projeções da Sportradar, o torneio deve movimentar mais de US$ 50 bilhões em apostas ao redor do mundo — salto de mais de 40% em relação aos US$ 35 bilhões registrados no Catar, em 2022. O Brasil deve responder por cerca de 10% desse volume global, algo em torno de US$ 5 bilhões apenas durante o período do torneio. São números que impressionam, mas que ganham dimensão ainda mais relevante quando cruzados com dados recentes sobre o perfil dos apostadores brasileiros — e o que esse comportamento representa para o turismo.

Pesquisa da FecomercioSP revela que 35% dos paulistanos apostam com o objetivo de aumentar a renda doméstica, não por entretenimento. É uma estratégia de alto risco: a natureza probabilística das plataformas garante que, no longo prazo, a casa sempre vence. Mais preocupante ainda: 4 em cada 10 pessoas nas faixas de menor renda apostam diariamente ou toda semana. Não se trata de um hábito esporádico, mas de um fluxo contínuo de recursos saindo do orçamento de quem tem menos margem para perdas.

É justamente aí que o turismo entra como variável diretamente afetada. Quando perguntados o que fariam com o dinheiro das apostas caso não apostassem, 39% dos entrevistados responderam que gastariam com lazer — e viagens certamente integram esse universo. Trata-se de uma demanda potencial sistematicamente desviada para as plataformas digitais, deixando de circular em destinos turísticos, meios de hospedagem, agências de viagem e atrativos locais.

Ao contrário de uma viagem — que distribui renda ao longo de uma cadeia que envolve transporte, hospedagem, alimentação e comércio local —, as apostas concentram o fluxo financeiro em plataformas frequentemente sediadas fora do Brasil, com baixíssima capacidade de gerar emprego e renda no território nacional. O dinheiro que entra nas bets não ocupa quartos de hotel, não enche restaurantes, não movimenta o comércio de destinos turísticos. Vale destacar que a FecomercioSP é favorável à operação de cassinos em resorts no Brasil, gerando impacto econômico concreto para o país, com emprego e renda.

Com a Copa do Mundo, esse quadro se intensifica. Grandes eventos esportivos historicamente ampliam o volume de apostas e incorporam novos apostadores. A expectativa de recorde global em 2026 sugere que o Brasil será um dos mercados com maior crescimento — reforçando uma concorrência silenciosa, mas concreta, com o setor de turismo. O setor que souber ler esse movimento com antecedência e desenvolver propostas capazes de disputar a atenção e os recursos desse consumidor estará mais bem posicionado. Ignorar esse concorrente, a essa altura, é um risco que o turismo brasileiro não pode se dar ao luxo de correr.

Economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP

Artigo publicado originalmente no portal HotelierNews em junho de 2026

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