Sustentabilidade
11/09/2026El Niño entra na conta das empresas e exige revisão de riscos
Fenômeno previsto para 2026 e 2027 pode afetar abastecimento, logística, contratos e seguros e elevar custos de empresas despreparadas
O próximo El Niño pode chegar ao caixa das empresas antes mesmo de atingir suas instalações. Interrupções no transporte, escassez de insumos e pressão sobre água e energia podem percorrer a cadeia de valor e comprometer operações. Diante de previsões, antecipar essas vulnerabilidades deve fazer parte da gestão do negócio.
“A omissão não resolve. Fazer de conta que esse é um tema que não é relevante não vai ajudar o negócio. Quem acompanha vai conseguir tomar decisões bem embasadas”, afirmou Ana Luci Grizzi, conselheira independente e consultora sênior.
Durante a reunião do Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), presidido pelo professor José Goldemberg, Ana apresentou os impactos esperados do El Niño 2026/2027 e importantes medidas de preparação e adaptação para reduzir as vulnerabilidades e fortalecer a resiliência dos negócios.
As projeções indicam mais chuvas e eventos extremos no Sul, secas intensas no Norte e Nordeste e calor, baixa umidade e pressão sobre reservatórios no Centro-Oeste. Mas os efeitos não respeitam fronteiras regionais. Uma empresa pode estar distante do evento climático e ainda sofrer com a interrupção de uma rota, a falta de matéria-prima ou problemas na produção de um fornecedor.
Por isso, o mapeamento deve alcançar ativos, fornecedores críticos, corredores logísticos e dependência de água e energia. Essa avaliação, segundo Ana, ainda avança lentamente na alta gestão. Em consultas realizadas pela especialista, apenas entre 10% e 15% dos conselhos ou comitês haviam discutido especificamente os riscos do El Niño e a preparação dos negócios.
Identificadas as fragilidades, é preciso definir alternativas de abastecimento e transporte, avaliar estoques de segurança e estabelecer responsáveis e protocolos para situações críticas.
Previsibilidade muda a gestão do risco
A capacidade de antecipar eventos extremos também traz implicações jurídicas. Se o risco era conhecido e havia medidas possíveis para reduzir os efeitos, a alegação de força maior pode exigir mais atenção das empresas. “Invocar força maior sem ter, de fato, feito monitoramento e sem contar com um plano de ação, de contingência e de mitigação pode ser um tiro no próprio pé”, alertou Ana. A orientação da especialista é revisar contratos, obrigações de fornecedores e coberturas de seguros, além de documentar medidas de prevenção.
A exposição climática pode chegar ainda ao custo do capital, conforme investidores e financiadores incorporem esses riscos às análises. “Quem ignorar esse risco vai pagar duas vezes. Na hora que o risco se materializar, o resultado vai embora. Não bastasse isso, o custo de capital também vai subir”, afirmou.
Goldemberg reforçou que as previsões já justificam providências. “É muito importante nós tomarmos algumas precauções, porque, ao que tudo indica, o El Niño deste ano será mais intenso do que nos anos passados”, reiterou. Para o presidente do conselho, as empresas devem identificar o que pode ser feito em suas atividades e transformar a preocupação em medidas concretas.
O que revisar agora
Mapear fornecedores, instalações e rotas expostas; preparar alternativas de abastecimento e transporte; avaliar estoques e dependência de água e energia; revisar contratos e seguros; atualizar a matriz de riscos; e monitorar as previsões para ajustar os planos de contingência.
Para o setor produtivo, a preparação deve começar antes do evento extremo. Quanto mais cedo a empresa identificar onde a cadeia pode falhar, maior será a capacidade de proteger a operação, os contratos e os resultados.
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