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Economia

Pressão tarifária dos Estados Unidos exige cautela e reforça necessidade de diálogo comercial entre países

Em encontro na FecomercioSP, diretor da Amcham Brasil analisa perda de competitividade das exportações brasileiras e defende negociação para evitar escalada comercial

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Fabrizio Panzini, diretor de Políticas Públicas e Relações Governamentais da Amcham Brasil. (Foto: Edilson Dias/FecomercioSP) Fabrizio Panzini, diretor de Políticas Públicas e Relações Governamentais da Amcham Brasil. (Foto: Edilson Dias/FecomercioSP)
Rubens Medrano e Márcio Olívio Fernandes da Costa realizam reunião conjunta. (Foto: Edilson Dias/FecomercioSP) Rubens Medrano e Márcio Olívio Fernandes da Costa realizam reunião conjunta. (Foto: Edilson Dias/FecomercioSP)
Foto: Edilson Dias/FecomercioSP Foto: Edilson Dias/FecomercioSP
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Fabrizio Panzini, diretor de Políticas Públicas e Relações Governamentais da Amcham Brasil. (Foto: Edilson Dias/FecomercioSP)
Rubens Medrano e Márcio Olívio Fernandes da Costa realizam reunião conjunta. (Foto: Edilson Dias/FecomercioSP)
Foto: Edilson Dias/FecomercioSP
Foto: Edilson Dias/FecomercioSP
Foto: Edilson Dias/FecomercioSP

A nova configuração da política tarifária dos Estados Unidos voltou a elevar a pressão sobre as exportações brasileiras e ampliou os obstáculos para a competitividade das empresas que atuam no mercado norte-americano. O cenário e seus desdobramentos para o setor produtivo foram debatidos na reunião conjunta do Conselho de Relações Internacionais e do Conselho de Assuntos Tributários da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), ocorrida em 19 de agosto.

Os efeitos desse novo cenário do comércio internacional sobre as empresas nacionais foram aprofundados por Fabrizio Panzini, diretor de Políticas Públicas e Relações Governamentais da Amcham Brasil, durante o painel “Comércio Internacional: desafios tarifários e atuação institucional do setor produtivo”.

Segundo os dados apresentados por Panzini, a nova fase da política comercial norte-americana colocou o Brasil novamente em uma posição de desvantagem competitiva. No cenário posterior à aplicação da Seção 301, a tarifa média incidente sobre produtos brasileiros chegou a 17,7%, a segunda maior entre as principais origens das importações norte-americanas, atrás apenas da China, com 27,2%. Antes dessa etapa, a média era de 11%. “Voltamos a ter uma desvantagem competitiva, mas há uma particularidade nessa relação. Diferentemente de grande parte dos países atingidos pelas medidas, os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil”, afirmou Panzini.

Nesse cenário, o executivo apontou a Reforma Tributária como um dos fatores domésticos que podem ajudar a compensar parte da perda de competitividade provocada pelas tarifas. Segundo ele, a desoneração mais ampla das exportações prevista pelo novo sistema tributário tende a reduzir custos para os negócios brasileiros que pretendem melhorar as condições de competição no mercado internacional. “A reforma vai desonerar a exportação e o investimento. Isso pode dar uma compensada para as empresas nacionais”, afirmou.

Exportações sentem os efeitos

Os resultados das sobretaxas já aparecem no desempenho das vendas brasileiras. Considerando os produtos atingidos pelas medidas, as exportações passaram de US$ 20,9 bilhões, entre agosto de 2024 e julho de 2025, para US$ 17 bilhões entre agosto de 2025 e julho de 2026, uma retração de 18,8%. A análise mensal mostra quedas sucessivas em praticamente todo o período, com abril como única exceção.

A perda de espaço dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro também se destacou. No primeiro semestre deste ano, o mercado norte-americano respondeu por 9,4% das exportações brasileiras e por 11,1% da corrente de comércio do País com o mundo, os menores níveis da série apresentada pela Amcham.

Para Panzini, o movimento merece atenção não apenas pela redução das vendas, mas pela importância estrutural dos Estados Unidos para a economia brasileira. “É um perigo você ter uma perda de importância de um parceiro comercial tão relevante”, afirmou, lembrando o peso do país como investidor e parceiro brasileiro no comércio de serviços.

São Paulo acompanha cenário nacional

O levantamento realizado pela Amcham e apresentado durante a reunião aponta que a retração se espalhou por boa parte dos principais Estados exportadores aos mercado norte-americano — 11 dos 15 maiores registraram queda nas vendas em 2025. Dentre os destaques citados por Panzini, estão São Paulo (-2,2%), Rio de Janeiro (-10,6%), Espírito Santo (-19,3%), Minas Gerais (-3,9%) e Santa Catarina (-20,4%). A exposição setorial ajuda a explicar as diferenças: no Rio de Janeiro, petróleo e siderurgia têm peso relevante; no Espírito Santo, petróleo, siderurgia e rochas ornamentais; em Minas Gerais, ferro-gusa e café; e, em Santa Catarina, madeira, móveis e máquinas.

São Paulo, principal exportador brasileiro para país, passou de US$ 13,57 bilhões, em 2024, para US$ 13,28 bilhões, em 2025. Apesar da retração de 2,2%, a pauta paulista é mais diversificada, com produtos como aeronaves e suco de laranja entre os itens beneficiados por exceções tarifárias, o que ajuda a colocar o Estado em situação próxima à média nacional.

Na configuração tarifária apresentada para o segundo semestre, 54% das exportações paulistas permanecem isentas das sobretaxas analisadas, enquanto 20% estão submetidas às tarifas de 25% ou 37,5%, ao passo que outros 24% estão enquadrados nas medidas setoriais da Seção 232.

Setor privado ganha espaço nas negociações

Diante desse quadro, a atuação empresarial foi apontada como uma das frentes relevantes na tentativa de reduzir os efeitos das medidas. Panzini relatou reuniões com autoridades brasileiras, participação em consultas e audiência pública nos Estados Unidos, interlocução com órgãos norte-americanos e ações conjuntas da Amcham Brasil e da U.S. Chamber of Commerce. A manutenção do diálogo bilateral, a busca por novas exceções tarifárias e a defesa de uma solução negociada que evite uma escalada entre os dois países são algumas das prioridades.

Segundo Panzini, as empresas têm demonstrado preocupação com uma eventual retaliação brasileira que possa desencadear novas medidas norte-americanas e aumentar também o custo das importações, inclusive de máquinas e equipamentos utilizados por empresas instaladas no Brasil. “Acredito que a retaliação seria um caminho ainda pior”, avaliou.

A avaliação não significa descartar os instrumentos comerciais disponíveis ao País. A Lei da Reciprocidade permite ao Brasil suspender concessões comerciais, de investimentos e obrigações de propriedade intelectual em resposta a determinadas medidas unilaterais. O mecanismo prevê restrições às importações de bens e serviços e suspensão de concessões comerciais.

No cenário considerado mais provável pela análise apresentada, entretanto, o processo tende a funcionar inicialmente como instrumento de pressão para estimular a negociação, sem adoção imediata de contramedidas. Caso não haja avanço, respostas seletivas e proporcionais poderão ser desenhadas, com participação do setor privado.

Relação bilateral vai além das tarifas

Apesar das tensões comerciais, Panzini ressaltou que Brasil e Estados Unidos mantêm áreas com grande potencial de cooperação. Algumas oportunidades apontadas foram minerais críticos, segurança energética e biocombustíveis, agricultura e tecnologia, especialmente investimentos em datacenter e Inteligência Artificial (IA).

Na avaliação apresentada durante o encontro, preservar esses canais de cooperação será fundamental para impedir que a disputa tarifária provoque uma deterioração mais ampla da relação econômica entre os dois países. “Brasil e Estados Unidos são parceiros óbvios nessa nova geopolítica global”, afirmou Panzini. Ele ainda ressaltou que o desafio é manter abertas as negociações e avançar em agendas capazes de produzir ganhos às duas economias, mesmo em um ambiente internacional marcado por mais protecionismo e disputas comerciais.

Rubens Medrano, vice-presidente da FecomercioSP e presidente do Conselho de Relações Internacionais, destacou que a Entidade está ampliando sua atuação na agenda internacional, tanto na frente institucional quanto na aproximação dos sindicatos e empresas representadas pela Federação, com oportunidades para auxiliar o desenvolvimento do comércio exterior.

“Existe uma ideia de que comércio internacional só se faz em Brasília. Esse é um conceito errado. O comércio internacional é o comércio dos Estados. Nós queremos começar incentivando a pauta da internacionalização aqui, pelo Estado de São Paulo”, afirmou Medrano. Segundo ele, a capilaridade da FecomercioSP e de sua rede sindical permite identificar empresas interessadas em ampliar a presença internacional e aproximar o debate sobre política comercial das necessidades concretas do setor produtivo paulista.

A reunião contou ainda com a exposição do advogado tributarista e despachante aduaneiro Roberto Magno Franzin Vieira, do escritório Souto Correa Advogados, que abordou os reflexos da Reforma Tributária nas operações de importação.


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