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Sustentabilidade

19/10/2021

Brasil precisa caminhar em direção a fontes renováveis para evitar repetição das crises hídrica e energética

Em evento, especialistas apontam que, sob risco climático, País não pode prosseguir dependente de hidrelétricas

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Brasil precisa caminhar em direção a fontes renováveis para evitar repetição das crises hídrica e energética

Especialistas defendem que País convirja para a transição energética
(Arte/Tutu)

Por Eduardo Vasconcelos

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), por meio do Conselho de Sustentabilidade (CS) e do Comitê Energia (CEn), realizou, na quinta-feira passada (14), um evento para discutir a escassez hídrica e a consequente crise no setor elétrico do País. Os especialistas apresentaram diagnósticos do atual problema, relacionando-os com as mudanças climáticas e com escolhas equivocadas no que diz respeito à infraestrutura da matriz energética, bem como soluções para diminuir a dependência das chuvas.

Abrindo a discussão, o presidente do CS e do CEn, José Goldemberg, destacou que grande parte da energia elétrica produzida no Brasil é proveniente das usinas hidrelétricas. Apesar de os reservatórios terem sido pensados para manter o sistema funcionando por dois anos – mesmo em períodos de poucas chuvas –, em razão de escolhas políticas, acabaram perdendo capacidade de armazenamento com o passar do tempo.

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“Hoje, no conjunto nacional, os reservatórios estão ocupando 25% do espaço que poderiam ter. Ou seja, o sistema está extremamente vulnerável à falta de chuvas”, apontou Goldemberg.

Diagnóstico da crise hídrica

O gerente nacional de Água da The Nature Conservancy (TNC) Brasil, Samuel Barrêto, destacou que não se pode olhar para o baixo nível de precipitação no País como um evento isolado. Enquanto por aqui ocorre uma das maiores secas dos últimos cem anos, em outros lugares há cheias históricas, como as recentes tempestades em Nova York e na Europa.

Segundo Barrêto, estes fenômenos estão acontecendo em mais frequência e intensidade graças às mudanças climáticas. Além disso, o especialista destacou que a cada dez desastres naturais, pelo menos sete estão relacionados à água.

Especificamente sobre o Brasil, ele afirmou que, dentre as causas da falta de chuvas, estão os desmatamentos da Amazônia e do Cerrado – os quais aumentam a temperatura e diminuem a precipitação –, a destruição de mananciais, o desleixo com as bacias hidrográficas e a perda de rios voadores (fluxos concentrados de vapor de água na atmosfera).

Além disso, Barrêto apontou que, segundo um prognóstico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o mundo deve aumentar o consumo de água em aproximadamente 50% até 2050. Nas nações que compõem os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), a alta é ainda maior, em torno de 80%.

“Se temos um problema, não adianta só ter consciência dele, mas saber como mitigar e agir”, alertou o gerente da TNC Brasil. “Não adianta só captar água, tratar e distribuir. É preciso proteger as fontes”, acrescentou.

Custos sociais

Guilherme Dietze, assessor econômico da FecomercioSP, ressaltou os impactos das crises hídrica e energética no bolso do consumidor e nos custos das empresas.

Com o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas e o acionamento das térmicas, que produzem energia mais cara, a tarifa de eletricidade aumentou 28,8% nos últimos 12 meses. Como comparação, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no mesmo período, acumula alta de 10,25%

“A energia elétrica é o segundo item que mais pesa no nosso índice de inflação”, explicou Dietze. “No comércio varejista, o gasto com energia elétrica, água, gás e esgoto representa 12% das despesas. É um porcentual de participação muito elevado. Se pegarmos combustível, alimentação e habitação, são dois terços dos gastos das famílias. Estamos tendo inflação em todos os campos”, complementou o economista.

Alternativas para o futuro

O coordenador do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Roberto Kishinami, alertou que, desde 2017, os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste não voltam ao nível que tinham em 2016 e que, a cada período de seca, o nível cai por volta dos 17% a 20% da capacidade de armazenamento.

Diante desta realidade, Kishinami indicou que, apesar de as hidrelétricas produzirem energia de modo mais barato, operam sob risco climático. Segundo ele, não se consegue mais estimar o volume de chuvas para as próximas décadas, o que inviabiliza a dependência das hidrelétricas.

Desta forma, para o coordenador do iCS, o País deve investir em fontes renováveis, como a eólica e a solar, e usar as hidrelétricas como fontes de apoio ao sistema.

“Em vez de ela [hidrelétrica] ser fornecedora de energia, passa a ser fornecedora de potência. Significa que cobre a diferença entre a demanda e a oferta”, sugeriu.

Isso seria feito por meio de um processo de transição energética em direção às fontes renováveis. “A transição energética se confunde, hoje, com a recuperação econômica. Sair da crise é avançar contra as mudanças do clima”, ressaltou Kishinami.

Segundo o presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia, a crise hídrica tornou o Brasil dependente de energia produzida na Argentina e no Uruguai. Por isso, ele defende a diversificação da matriz energética, ampliando o espaço para a geração de eletricidade proveniente dos ventos e da luz solar.

Neste novo cenário, a hidrelétrica ocuparia a função que, hoje, cabe à usina térmica, isto é, faria o suporte do sistema, e não mais o papel de principal provedor de energia.

“Para o médio prazo, a expectativa é que a energia solar, hoje, a sexta do Brasil, passe a ser a quinta maior fonte. Contudo, no longo prazo, os analistas projetam que seja a primeira, chegando a 32% até 2050, contra 30% da hidrelétrica”, declarou Sauaia. “Quanto mais [energia] solar o Brasil contratar, menor será a conta daqui a dez, 15, 20 anos”, frisou.

Confira aqui o evento Crise Hídrica e Emergência Energética. E agora? na íntegra.

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