Economia

07/09/2017

Analfabetismo: um mal de séculos

Com aproximadamente 13 milhões de analfabetos maiores de dez anos em 2003 – o equivalente a 12% da população –, País tinha como meta chegar a 6,7% em 2015, o que não ocorreu

Analfabetismo: um mal de séculos

Para se ter uma ideia, o número de analfabetos com mais de dez anos no Brasil é gente suficiente para encher 165 estádios do Maracanã (Arte: TUTU)

Com informações de Sabine Righetti

O Brasil está no topo de um ranking do qual não há motivo para orgulho: o dos países com a maior concentração de analfabetos. Atualmente, há no Brasil em torno de 13 milhões de analfabetos com mais de dez anos, segundo os dados de estudo realizado em 2015 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analfabeta é a pessoa que não consegue escrever ou ler um simples bilhete.

Entretanto, é certo afirmar que as políticas públicas para alfabetização de adultos tiveram progressos. Na história recente do País, a ditadura militar criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização, o Mobral; no governo de Fernando Henrique Cardoso, criou-se o programa Alfabetização Solidária; e no governo de Lula, o Brasil Alfabetizado. Apesar de algumas campanhas de alfabetização e da universalização das matrículas escolares nos primeiros anos do ensino fundamental nas escolas, o problema persiste.

A despeito desses problemas, a taxa de analfabetismo já foi pior, atingindo 40% da população nos anos de 1970. Só em 2003, o Ministério da Educação (MEC) assumiu uma nova postura para erradicar o problema. Nessa época, a taxa de analfabetismo girava em torno de 12% da população. A meta era chegar em 6,7% em 2015 – o que também não ocorreu.

Acesso

Segundo a secretária-executiva do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro, há vários desafios para reduzir o número de pessoas que não sabem ler nem escrever.

“É preciso fazer uma busca ativa dos analfabetos por meio de uma força-tarefa. Isso envolve um trabalho de muita parceria do governo com municípios, chamadas pelo rádio para que as pessoas possam comparecer a um lugar para que sejam cadastradas e para que saibam que podem ser alfabetizadas”, diz Maria Helena.

“O número de analfabetos não vai diminuir enquanto não houver a consciência de que é preciso investir muito mais na chamada pública do projeto de Educação de Jovens e Adultos (EJA)”, afirma a professora Maria Clara di Pierro, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), especialista no tema.

Maria Clara explica que discriminação em relação a analfabetos e experiências anteriores de fracasso dos alunos que tentaram se alfabetizar requerem uma ação convocatória intensa. É preciso ir às igrejas, às comunidades, aos pontos de ônibus para chegar a essas pessoas. “É tão complexo, que tudo começa por estimular essa população a se mobilizarem para ir ou voltar à escola. Não adianta botar uma plaquinha na porta do colégio”, diz. “Em toda parte do mundo, a mobilização é um componente importante para conseguir instigar esse público. Aqui é totalmente negligenciado.”

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Modelo rígido

Quem entra no sistema de educação ainda acaba enfrentando outro desafio: o atendimento inadequado. Especialistas dizem que a alfabetização voltada para o adulto é feita de um modo bem mais acelerado em relação à de crianças e adolescentes e em um tempo menor. As políticas deveriam adotar um meio que considerasse mais o perfil de cada aluno e suas necessidades específicas. Para a especialista da USP, os modelos de alfabetização deveriam ser mais maleáveis e em escolas próximas aos alunos. “Uma pessoa de 50 anos que trabalha o dia inteiro não consegue assistir a quatro horas de aula à noite e depois levar mais uma hora até chegar em casa.”

Os piores indicadores de analfabetismo no País estão na Região Nordeste, 15% da população com mais de dez anos não sabem ler e escrever. Além disso, um em cada cinco adultos com mais de 25 anos é analfabeto. De acordo com o MEC, 90% dos municípios brasileiros com alta taxa de analfabetismo estão na Região Nordeste. Ainda no Nordeste, um dado especialmente alarmante: a Pnad de 2015 mostra que 2% dos adolescentes entre 15 e 17 anos não sabem ler nem escrever. São cerca de 64 mil pessoas. Não é apenas uma questão de recursos, mas também a falta dinheiro. De acordo com dados do MEC, o programa Brasil Alfabetizado beneficiou 6,7 milhões de jovens e adultos em quatro anos (entre 2008 e 2012) com um orçamento total de R$ 1,4 bilhão. O valor equivale ao gasto quadrimestral da USP, por exemplo.

Confira a matéria na íntegra na Revista Problemas Brasileiros – edição 441.