Economia

29/03/2019

“Baixa produtividade é problema crônico no Brasil”, diz José Pastore em evento na FecomercioSP

Evento realizado na sede da Entidade aponta que educação profissional e tecnologia são os melhores investimentos para mudar o quadro da baixa produtividade do País

“Baixa produtividade é problema crônico no Brasil”, diz José Pastore em evento na FecomercioSP

Reflexos dessa baixa produtividade são sentidos em cascata por toda a economia, inclusive no bolso dos consumidores
(Foto: Eugênio Goulart)

A baixa produtividade brasileira tem raízes distintas, mas a escassez de investimentos em educação profissional, principalmente entre os jovens, foi apontada como uma das causas dessa situação. A análise foi feita por especialistas que estiveram presentes no evento “Por que a produtividade no Brasil é tão baixa?”, organizado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), na sexta-feira (29), na sede da Entidade.

“A estagnação da produtividade brasileira vem de longe, e, enquanto não progredimos, outros países caminharam. Muitos fatores pesam sobre a baixa produtividade brasileira, e um deles é a educação. Para a produtividade, a educação não é tudo, mas é quase tudo”, alerta o presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP, José Pastore.

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Os reflexos dessa baixa produtividade são sentidos em cascata por toda a economia, inclusive no bolso dos consumidores, na aquisição de produtos e serviços. “O Brasil é um país caro porque não consegue competir e ter preços favoráveis. Os altos custos (resultado dos desperdícios e falta de foco) oneram a produção. A produtividade do trabalho pesa nesse quadro”, explica.

Prova de que o País ficou para trás está no ranking de competitividade da escola de negócios suíça IMD. No estudo mais recente, divulgado em 2018, o Brasil está no 60º lugar, na frente apenas de Croácia, Mongólia e Venezuela.

“Até 1980, nossa produtividade era parecida com a coreana e o dobro da chinesa, mas paramos de crescer, e, em 2011, o crescimento de produtividade do Brasil ficou abaixo dos países africanos. Paramos e o mundo seguiu”, comenta o professor titular de Políticas Públicas da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), André Portela.

O docente ressalta que, concomitantemente a essa realidade, existe a implementação da tecnologia no mercado de trabalho, a chamada “indústria 4.0”, que provoca mudanças na maneira como produzimos e na busca por profissionais. Para ele, essa tecnologia deve ser vista e usada como forma de aumentar a produtividade.

“Essas tecnologias são capazes de substituir o capital humano naquilo que pode ser programado, em trabalhos repetitivos. Agora, o que é demandado no mercado de trabalho com essas tecnologias são as pessoas, que tomam decisões interpessoais e urgentes. Os requerimentos de habilidades foram alterados. Precisamos adaptar a tecnologia ao trabalhador, e o trabalhador, à tecnologia”, diz Portela.

A educação brasileira vai na contramão dos países europeus, porém a inclusão das formações técnica e profissional no currículo regular vai instrumentalizar o trabalhador, gerando ganhos para ambos os lados (empresa e empregado) e ganhos para a sociedade. Isso vai impactar em competitividade.

“Nosso sistema educacional é muito recente. Temos cem anos de atraso educacional e reduzida oferta de formações técnica e profissional. Atualmente, o jovem que acabou de completar o ensino médio tem a formação deficiente em Matemática, Português, e é difícil ele se inserir no mundo do trabalho”, afirma o diretor de educação e tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Rafael Lucchesi.

O vice-presidente da FecomercioSP Ivo Dall'Acqua Júnior analisou a situação e exemplificou com o caso de empresários que investem para seguir a Lei do Aprendiz e, posteriormente, ficam sem aquele estagiário treinado. “A empresa tem de atender à determinada cota, mas o número de postos de trabalho não aumenta, ou seja, a empresa investe ao receber o estagiário e, terminada a aprendizagem, o único jeito de ele continuar na empresa é ocupando o lugar de alguém que vai ser demitido.”

No caso do agronegócio, o ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV-EESP, Roberto Rodrigues, relembrou que o crescimento da produtividade do setor – mundialmente conhecido – aconteceu na década de 1990. “O agronegócio brasileiro é o maior do mundo, porque o setor investiu em tecnologia ao mesmo tempo que aproximou as universidades do campo”, conclui Rodrigues.