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27/05/2026Consumo desacelera, apostas avançam e atacado ganha protagonismo em 2026
Inflação, endividamento e mudanças de comportamento estão redesenhando o consumo brasileiro, enquanto atacadistas e distribuidores ampliam relevância no abastecimento nacional
O consumidor brasileiro começou o ano mais pressionado financeiramente, mais seletivo nas compras e disputado por uma quantidade inédita de categorias, plataformas e serviços. A avaliação foi apresentada por Pietro Bastos, gerente da NielsenIQ Brasil, durante reunião de maio do Conselho do Comércio Atacadista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), ao detalhar os principais movimentos do consumo e do setor atacadista no País.
Segundo Bastos, o ambiente econômico segue marcado por juros elevados, endividamento das famílias e redução do poder de compra, fatores que desaceleraram o consumo ao longo de 2025 e continuam influenciando o comportamento do consumidor em 2026. “O consumo das famílias desacelerou, impactado por juros, endividamento e inflação dos serviços, principalmente no último trimestre”, destacou.
Mesmo com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,3%, renda em alta de 3,8% e desemprego em 5,2%, o avanço do consumo das casas brasileiras ficou limitado a 1,3%, refletindo o orçamento cada vez mais pressionado da população.
Bolso do consumidor mudou
Um dos principais pontos foi a transformação da matriz de gastos dos brasileiros. Dados da NielsenIQ mostram que os gastos com abastecimento do lar perderam participação no orçamento familiar nos últimos anos, enquanto despesas secundárias, contas domésticas e outras dívidas ganharam espaço.
Segundo o levantamento, a participação dos produtos de abastecimento doméstico caiu de 23,2%, em 2023, para 21,9%, em 2025. Ao mesmo tempo, os gastos secundários passaram de 29,2% para 31,4% do orçamento familiar.
A pesquisa também mostrou que consumidores de baixa renda passaram a depender mais do cartão de crédito para complementar despesas básicas. Famílias com renda de até dois salários mínimos comprometem mais de 60% da renda com alimentos e higiene, enquanto as faixas intermediárias enfrentam crescente pressão das contas domésticas. “Quanto menor a renda, maior o endividamento com cartão de crédito”, ponderou.
‘Bets’, ‘streaming’ e plataformas entram na disputa pelo consumo
A chamada “disputa generalizada pelo bolso do consumidor” também foi destaque. Segundo a NielsenIQ, categorias que antes não competiam diretamente com o varejo alimentar, agora, capturam parcelas importantes da renda das famílias brasileiras.
Jogos de aposta, plataformas digitais, streaming, aplicativos de mobilidade e compras internacionais passaram a disputar espaço com o consumo tradicional. O mercado de apostas, por exemplo, já movimenta cerca de R$ 360 bilhões, mesmo patamar estimado para serviços de streaming.
O avanço das apostas esportivas apareceu como um dos fenômenos mais relevantes. Segundo a NielsenIQ, 26% dos lares brasileiros afirmam participar regularmente de jogos e apostas, o dobro do registrado um ano antes. Quase metade dos apostadores declarou buscar aumento de renda como principal motivação.
A preocupação dos setores varejista e atacadista aumenta porque parte desse consumo já substitui despesas essenciais. Dentre os consumidores que admitiram trocar gastos do lar por apostas, 47% reduziram despesas com alimentação e 45%, com contas domésticas.
Consumidor leva menos itens para casa
A desaceleração também aparece dentro dos carrinhos, com a queda contínua no número de itens levados por ocasião de compra ao longo do ano passado. No quarto trimestre, a retração chegou a 6,5%, enquanto o acumulado dos canais indicou queda de 8% nas unidades compradas.
Para Bastos, isso explica por que parte do crescimento observado no varejo ocorre mais por reajuste de preços do que por expansão real de volume. O fenômeno aparece de forma desigual entre os canais. Enquanto farmácias de rede cresceram 5,6% em volume, bares, mercearias e varejo independente sofreram retrações expressivas.
Houve ainda crescimento acelerado do mercado de medicamentos voltados para o emagrecimento. Em 2026, oito dos dez produtos mais vendidos na cadeia farmacêutica pertencem à categoria de emagrecedores injetáveis, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
Atacado amplia influência sobre varejo brasileiro
Ao abordar o cenário do canal atacadista e distribuidor, Bastos destacou o peso crescente do setor dentro da cadeia nacional de abastecimento. Segundo os dados apresentados, o mercado brasileiro de bens de consumo movimenta cerca de R$ 1,1 trilhão, sendo que o setor atacadista já cobre mais de 51% dos canais de venda. O segmento tem forte presença principalmente em supermercados pequenos, varejo tradicional, bares e food service, em que a cobertura do atacado supera 80% em diversos casos.
O Ranking Abad 2026 mostrou que os respondentes faturaram R$ 302,5 bilhões em 2025, um crescimento de 9,2% sobre o ano anterior. Apesar da pulverização regional, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina concentram mais da metade do faturamento do setor. O levantamento identificou ainda forte concentração econômica: apenas 13 atacadistas respondem por 50% do faturamento total analisado.
De acordo com Bastos, a operação de “distribuidor com entrega” tornou-se o principal modelo de atuação do setor, representando 44,5% do faturamento.
Farmácias lideram crescimento
Os dados mais recentes do Termômetro Abad NielsenIQ indicam que o canal farmacêutico se consolidou como principal destaque do primeiro trimestre de 2026. Em março, farmácias registraram crescimento de 16% em faturamento na comparação anual, desempenho muito superior aos demais canais monitorados.
No acumulado entre janeiro e março, o mercado de consumo nacional cresceu 5,2% em valor, puxado principalmente pelo aumento do preço médio e do tíquete por ponto de venda. O crescimento em volume, porém, permaneceu discreto (0,9%). No varejo alimentar, o Sudeste continua liderando as vendas nacionais, mas o Norte apresentou o maior crescimento em faturamento no período, com avanço de 11,7%.
Já no food service, o crescimento nacional chegou a 9% em vendas, impulsionado por reajustes de preços, aumento do tíquete médio e retomada gradual do fluxo de consumidores.
Copa do Mundo deve estimular consumo dentro de casa
Bastos ainda apontou que 2026 tende a ser um ano guiado por grandes eventos sazonais, como eleições e Copa do Mundo, favorecendo momentos específicos de consumo. A realização da Copa entre junho e julho deve fortalecer o consumo doméstico, especialmente por causa do inverno nas regiões Sul e Sudeste, das festas juninas no Norte e Nordeste e do período de férias escolares.
O estudo aponta oportunidades para categorias ligadas a conveniência, alimentos quentes, bebidas, delivery e consumo familiar dentro de casa. Ao mesmo tempo, tendências como saudabilidade, digitalização e comportamento da geração Z devem continuar moldando o mercado brasileiro nos próximos anos.