Economia
03/08/2026Copom deve baixar Selic, mas discussão deveria atingir estrutura de gastos e revisão de despesas públicas
FecomercioSP aponta que, se quadro fiscal não for revertido, País terá dois cenários em breve: crise de confiança ou ajuste via inflação, o que prejudica os mais pobres
O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), deve seguir o plano de flexibilização da taxa básica de juros, a Selic, na reunião desta semana, com um novo corte, de 0,25 ponto porcentual (p.p.), levando-a para 14% ao ano (a.a.).
Há motivos para isso: a inflação acumulada em 12 meses (4,64%), embora ainda permaneça acima do teto meta, está em desaceleração. A alta de junho (0,16%) foi mais sazonal do que estrutural, vindo a reboque da alta na energia elétrica. Os últimos dados do IPCA-15 vieram abaixo das expectativas do mercado. Além disso, um novo corte não significa, necessariamente, afrouxamento, já que a taxa real permanece entre 9% e 10% a.a., ainda bastante elevada.
O que a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) insiste em reforçar é como a política monetária do BC está sendo usada como uma ferramenta de uma situação que não pode resolver: o quadro fiscal do País, o qual segue muito deteriorado.
A dívida pública, somando União, Estados e municípios, já está perto dos 80% do Produto Interno Bruto (PIB). Com os precatórios, as contas do governo estão outra vez no vermelho e, para piorar, o Brasil acaba de voltar a uma conjuntura de conflito tarifário com os Estados Unidos — segundo parceiro comercial do País —, além das incertezas globais que, dentre outras coisas, pressionam os preços do petróleo.
Soma-se a isso o endividamento. Uma em cada três famílias (29,9%) convivia com contas atrasadas em junho, segundo os dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Quase um terço da renda dos lares brasileiros (29,3%) tinha destino certo no mês: pagar despesas. Como boa parte dessas dívidas originam pelo cartão de crédito e pelo crediário, o consumidor fica sujeito ao custo efetivo total, ainda que decida o valor da parcela mensal.

Em outras palavras, o juro básico não desestimula o consumo das famílias mais pobres, mas encarece o custo de vida, empurrando-as para a inadimplência. E esse ciclo é perverso — como o aperto dos juros altos caem sobre quem investe, (ou seja, as empresas), a capacidade produtiva cai.
Na leitura da FecomercioSP, o possível corte da Selic nesta semana não resolve nada do ponto de vista estrutural, já que os gastos públicos seguirão elevados e os resultados nominais continuarão piorando. É urgente avançar para o controle de gastos obrigatórios, revisando todas as indexações e despesas vinculadas.
Ou esse caminho é seguido ou então teremos dois cenários no futuro próximo: uma crise de confiança do empresariado e do consumo de grandes proporções, ou o ajuste “silencioso” pela inflação, cuja conta é paga pelos menos abonados.