Economia
14/05/2026Crédito caro e endividamento colocam empresas no modo sobrevivência
Com quase 9 milhões de inadimplentes no País, gestão financeira é primordial para preservar caixa, renegociar dívidas e rever custos
O aumento do endividamento das empresas brasileiras deixou de ser apenas um indicador econômico e passou a representar um sinal concreto de risco para a sobrevivência dos negócios. Frente a juros elevados, crédito caro e desaceleração do consumo, empresas de diferentes portes vivem em um ambiente financeiro mais apertado — principalmente no Comércio e nos Serviços, setores mais dependentes da renda das famílias.
Segundo dados da Serasa Experian, a inadimplência dos negócios brasileiros encerrou 2025 em patamar recorde, com 8,9 milhões de CNPJs negativados e estoque de dívidas em atraso de R$ 212,8 bilhões. O quadro permaneceu pressionado no início deste ano, com o indicador de empresas inadimplentes em março atingindo o mesmo patamar de dezembro de 2025, indicando que o problema não se limita a um ajuste pontual, mas reflete deterioração financeira persistente em um ambiente de juros ainda elevados e crédito seletivo.

A questão atual vai além da desaceleração das vendas. Para a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), o principal problema está na deterioração das condições financeiras das empresas, causada pelo aperto monetário prolongado e pela perda de capacidade de consumo das famílias.
Na capital paulista, mais de 70% das famílias estão endividadas e cerca de 21% já estão inadimplentes, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC).
O impacto chega rapidamente às empresas. Mesmo com o Comércio no Estado registrando faturamento recorde superior a R$ 1,5 trilhão em 2025, houve desaceleração nas vendas no segundo semestre do ano, incluindo períodos tradicionalmente fortes, como Black Friday e Natal.
As receitas crescem menos; o custo financeiro sobe; as margens ficam comprimidas; o capital de giro perde força. E o caixa passa a ser o principal fator de sustentação das operações.
MPEs são as mais vulneráveis
A situação é ainda mais delicada para as Micro e Pequenas Empresas (MPEs). Dos negócios inadimplentes registrados em janeiro de 2026, 8,3 milhões pertencem a esse grupo, responsável por R$ 176,1 bilhões em dívidas acumuladas.
Além do peso das dívidas, essas empresas têm menos acesso a linhas estruturadas de crédito e dependem mais de financiamentos de curto prazo, justamente os mais caros em um ciclo de juros elevados.
Os setores mais afetados pela inadimplência são os Serviços, com 55,3% dos registros, seguido pelo Comércio (32,7%) e pela Indústria (8,1%).

Recuperações judiciais avançam no País
A deterioração financeira das empresas já aparece no avanço dos pedidos de recuperação judicial. Em 2025, mais de 2,4 mil recorreram ao mecanismo, alta de 13% em relação ao ano anterior. Agricultura, Serviços e Comércio lideram os pedidos.
Segundo a FecomercioSP, no entanto, o avanço das recuperações judiciais não representa necessariamente uma explosão de falências, mas um movimento crescente de reorganização financeira diante de um cenário de crédito mais restritivo.
O próprio número de pedidos de falência caiu no período, indicando que muitas empresas buscam alternativas para preservar operações antes do encerramento definitivo das atividades.

Fluxo de caixa supera lucro como prioridade
A Entidade ressalta que o contexto atual exige mudança estrutural na forma de gestão das empresas. Em ciclos de expansão econômica, o foco costuma estar no crescimento e no ganho de mercado. Agora, a prioridade é preservar liquidez, proteger o caixa e manter a capacidade operacional.
Nesse cenário, o fluxo de caixa passa a ser mais importante do que o lucro isoladamente. Empresas excessivamente dependentes de crédito de curto prazo ou da rolagem constante de dívidas tornam-se mais vulneráveis em um sistema financeiro mais seletivo e de capital caro.
A FecomercioSP recomenda que empresários adotem medidas preventivas para preservar a operação e reduzir o risco financeiro. O primeiro passo é reforçar o controle rigoroso do fluxo de caixa, com projeções realistas e monitoramento permanente das entradas e saídas de recursos.
A renegociação de dívidas também é considerada fundamental. Alongar prazos, revisar juros e reorganizar passivos podem aliviar a pressão financeira no curto prazo e dar fôlego para a continuidade das operações.
Outra recomendação é revisar de maneira profunda a estrutura de custos. Em um ambiente de crescimento mais lento, eficiência operacional deixa de ser diferencial competitivo e passa a ser requisito básico de sobrevivência.
A incorporação de tecnologias e soluções de Inteligência Artificial (IA) para ganho de produtividade pode ajudar empresas a reduzir despesas e otimizar processos. A gestão de estoques também ganha relevância. Estoques elevados imobilizam capital e comprometem liquidez. Já estoques insuficientes podem resultar em perda de vendas. O equilíbrio entre oferta e demanda torna-se decisivo em um momento de mais cautela do consumidor.
Gestão financeira em foco
- Intensifique o controle diário do fluxo de caixa
- Renegocie prazos e juros com credores
- Revise custos e despesas operacionais
- Ajuste estoques à demanda real
- Reveja o mix de produtos e os canais de venda
- Invista em produtividade e tecnologia
- Evite crédito emergencial de alto custo
- Trate recuperação judicial apenas como último recurso
Além da gestão financeira, a FecomercioSP alerta para os riscos jurídicos associados ao agravamento das dificuldades econômicas. Em casos de irregularidades na administração, como confusão patrimonial, fraude ou desvio de finalidade, os sócios podem ser responsabilizados pessoalmente pelas obrigações da empresa.
De acordo com a Federação, a conjuntura exige cautela e mais estratégia. Em um contexto de juros altos e crédito restrito, sobreviver dependerá cada vez mais da capacidade de preservar caixa, adaptar operações e tomar decisões com rapidez.