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Editorial

01/10/2018

Descongestionar para o País andar, por Camila Junqueira

Coordenadora geral da Endeavor Brasil escreve sobre as condições necessárias para que as empresas entrem em um período sustentável de alto crescimento

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Descongestionar para o País andar, por Camila Junqueira

Em artigo, coordenadora geral da Endeavor Brasil fala sobre a construção de um ecossistema que estimule o empreendedorismo
(Arte/Tutu)

Por Camila Junqueira

Nos últimos anos, o estímulo ao empreendedorismo ganhou força em todas as partes do mundo como estratégia vital para o desenvolvimento sustentável e o aumento da produtividade da economia, essenciais para nos tornarmos uma nação de renda per capita elevada e menos desigual.

Pouca gente sabe, mas 1% das empresas brasileiras gera quase 70% dos novos empregos no País, segundo o estudo “Estatísticas do Empreendedorismo”, uma parceria entre a Endeavor e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essas são as empresas de alto crescimento (EAC), que crescem 20% ao ano, ao longo de três anos consecutivos. Em 2015, elas representavam pouco mais de 25 mil empresas. Há uma relação positiva entre alto crescimento e produtividade. Seus efeitos na economia são, portanto, significativos.

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No entanto, há ainda um grupo bem específico entre essas EACs que gera ainda mais impacto na economia. As scale-ups são empresas que apresentam alto ritmo de crescimento com base, fundamentalmente, em um modelo de negócios escalável. Ou seja, são organizações que aumentam sua atividade (produção, vendas) sem que os custos cresçam no mesmo ritmo. Com isso, não apenas geram empregos, mas trabalham fortemente para ganhar eficiência. E esse foco na produtividade é fator essencial para que o alto crescimento – normalmente tido como uma fase na vida de uma empresa – seja mais sustentável em longo prazo.

Em consulta recente aos empreendedores da rede Endeavor que representam uma amostra das empresas que mais crescem no País, identificamos quatro desafios prioritários para que mais companhias possam entrar em um período sustentável de alto crescimento: (I) simplificar os processos de abertura, regularização e fechamento de empresas; (II) simplificar a estrutura tributária nacional; (III) tornar mais transparente e ágil a concessão de crédito a médias empresas por parte de bancos públicos e agências de fomento; e (IV) agilizar a concessão de propriedade intelectual.

De modo geral, esses desafios poderiam ser creditados às distorções burocráticas do ambiente de negócios. Não é preciso ir longe para ver que a quantidade de regras sem qualquer racionalidade – e que, muitas vezes, parecem inofensivas – traz consequências indesejáveis para o País. É praticamente impossível, por exemplo, que o empreendedor saiba se está pagando o tributo certo, da forma correta. Não é à toa que a pesquisa “Burocracia no ciclo de vida das empresas”, produzida pela Endeavor em 2017, apontou que 86,2% das empresas brasileiras (incluindo escritórios de contabilidade) possuíam irregularidades com algum órgão fiscal federal.

Em um ano importante como este, em que escolheremos o presidente que conduzirá o País pelos próximos quatro anos, os candidatos deverão se posicionar. Deverão responder como pretendem retirar o Brasil da inaceitável 125ª posição do ranking Doing Business de 2018, elaborado pelo Banco Mundial.

Estima‑se que, se os procedimentos e atrasos fossem reduzidos à metade no Brasil, o aumento da renda per capita em longo prazo seria de 25%¹. Faz‑se necessária a construção de um ecossistema que estimule o crescimento e o impacto dos empreendedores, para que eles possam carregar as transformações que o Brasil tanto precisa. Precisamos descongestionar para o País andar!

1. CAVALCANTI, T; MAGALHAES, A.; TAVARES, J. Institutions and Economic Development in Brazil. Quarterly Review of Economics and Finance, v. 48(3), págs. 412-32, 2008.

*Camila Junqueira é coordenadora geral da Endeavor Brasil
Artigo publicado na revista Problemas Brasileiros, edição especial de setembro de 2018