Editorial

03/05/2019

E o emprego quando volta?, por José Pastore

Presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP destaca que a criação de novos postos de emprego depende fundamentalmente do crescimento econômico

E o emprego quando volta?, por José Pastore

"Brasil pode levar 10 anos para voltar ao desemprego pré-crise de 2014, mas esse tempo poderá ser reduzido para cinco anos se o país voltar a crescer 4% ao ano", escreve
(Arte: TUTU)

Por José Pastore*

É triste verificar que o Brasil possui mais de 28 milhões de pessoas subutilizadas (PNAD, março de 2019). Enquanto permanecem nesse estado, essas pessoas enfrentam graves dificuldades para viver, consomem menos e nada (ou pouco) recolhem contribuições para a Previdência Social e demais impostos. Nos anos de 2015-16, a recessão destruiu cerca de 2,5 milhões de postos de trabalho. Em 2017, festejou-se a destruição de apenas 20 mil empregos e em 2018 foram gerados cerca de 600 mil postos de trabalho formais — o que foi muito pouco para compensar o estrago anterior.

O ano de 2019 começou com previsões de crescimento do PIB da ordem de 2,5% e geração de 800 mil a um milhão de postos de trabalho formais. Mas, os sinais de otimismo se extinguiram logo. Os analistas vêm refazendo suas previsões dia a dia, oscilando entre 1% e 1,5% na melhor das hipóteses. Os índices de confiança dos consumidores e dos empresários estão caindo. A economia não deslanchou. A geração de empregos vem perdeu fôlego: no primeiro trimestre foram criados cerca de 180 mil postos de trabalho — o que é muito pouco. Em março, houve uma destruição de 43 mil empregos formais, a maioria no comércio (-29 mil), na agropecuária (-9 mil), na construção civil (-7,8 mil). Nos serviços, que costuma ser o carro-chefe, a geração de empregos formais foi pífia (+4,5 mil).

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O que dizer da qualidade dos novos empregos? Ao longo do ano de 2018, o emprego formal contraiu — 0,4%, tendo crescido o informal. Isso tudo compromete a geração de uma massa salarial vigorosa, que é a chave para aumentar o consumo, ativar as empresas e gerar novas oportunidades de trabalho.

O desemprego se mantém alto (12,7%) e persistente para todos os grupos sociais, em especial, para os jovens que amargam uma taxa de desocupação de 27%. Dentre os mais velhos, 26% estão desempregados há mais de dois anos.

Vários estudos mostram que o crescimento do emprego depende fundamentalmente do crescimento econômico. As previsões dos analistas indicam que a taxa de desemprego cairá de forma muito lenta no médio prazo. No cenário otimista, onde o país cresce 2,5% ao ano, o desemprego cairia dos 12,4% (registrados em fevereiro) para 11,8% até o final de 2020. No cenário pessimista, em que o Brasil cresce 1,5% ao ano, o desemprego ficaria em torno de 12,2%. Isso significa que o Brasil pode levar 10 anos para voltar ao desemprego pré-crise de 2014 quando a taxa foi de 4,8%. Esse tempo poderá ser reduzido para cinco anos se o país voltar a crescer 4% ao ano.

No momento, as incertezas no campo político vêm inibindo o “espírito animal” dos empresários nacionais e estrangeiros para investir no Brasil. E sem investimentos, será impossível gerar empregos. Para a criação de grande quantidade de empregos e demais oportunidades de trabalho será fundamental a realização de grandes obras de infraestrutura, construções residenciais, armazéns, hospitais, indústrias, agronegócios, etc. Mesmo em um cenário bastante otimista em que as referidas incertezas se dissipem ao longo de 2019, os investidores começarão a construir novas obras e implantar os novos projetos em 2020. Ou seja, o Brasil só poderá contar com boa oferta de empregos no médio prazo (2020-25).

Em resumo, os próximos anos serão ainda marcados por forte desemprego e desajustes funcionais entre a nova demanda e a atual oferta de trabalhadores no mercado de trabalho do Brasil. Tais desafios não se resolvem com a pretendida mudança na metodologia de aferição do desemprego do IBGE como pretende o Presidente Jair Bolsonaro. Gostaria de dizer o contrário, mas parece inevitável o fato de o Brasil conviver com altas taxas de desemprego por mais dois ou três.

*José Pastore é Presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP
Artigo originalmente publicado no jornal Correio Braziliense no dia 03 de maio de 2019.