Editorial
15/09/2026El Niño exige um novo olhar sobre os riscos do negócio
Com eventos climáticos mais intensos, adaptação deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a fazer parte da estratégia empresarial
Por José Goldemberg e Cristiane Cortez*
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pela elevação anormal da temperatura das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação das correntes marítimas e influencia o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta. Durante sua ocorrência, os ventos alísios enfraquecem, permitindo uma concentração maior de águas quentes no centro e no leste do Pacífico.
Embora faça parte da variabilidade natural do clima, o que preocupa atualmente é sua interação com um planeta cada vez mais quente. Estudo recente publicado na revista Science, com base em registros de corais das Ilhas Galápagos, indica que os El Niño atuais estão, em média, 36,5% mais intensos que no período pré-industrial. Há ainda uma relação de mão dupla: as mudanças climáticas podem intensificar o El Niño, enquanto o próprio fenômeno pode contribuir para agravar o aumento da temperatura global.
No Brasil, seus efeitos incluem ondas de calor, chuvas torrenciais e enchentes (em algumas regiões) e secas, baixa umidade e pressão sobre os reservatórios (em outras). Para uma empresa, porém, a ameaça climática não termina na porta do estabelecimento. Uma enchente distante pode interromper uma rodovia, paralisar um fornecedor e impedir a chegada de mercadorias. Uma seca prolongada pode comprometer os fornecimentos de água e energia e a disponibilidade de matérias-primas.
Por isso, a adaptação climática precisa entrar definitivamente no planejamento empresarial. Não se trata apenas de uma pauta ambiental ou de ESG, mas de gestão, proteção do patrimônio e continuidade do negócio. Mapear instalações, fornecedores e rotas vulneráveis, avaliar a dependência de insumos essenciais (como água e energia), prever alternativas de abastecimento, revisar seguros e contratos e estabelecer responsáveis e protocolos para emergências são medidas capazes de reduzir vulnerabilidades e exposição a riscos.
A experiência de organizações atingidas por eventos extremos mostra que improvisar durante uma crise custa mais caro. Recursos reservados, responsabilidades previamente definidas e redes de parceiros permitem respostas mais rápidas e reduzem danos às pessoas e às operações.
A adaptação também precisa avançar no âmbito das políticas públicas. O Plano Clima Adaptação — Cidades já apresenta um diagnóstico das vulnerabilidades urbanas, identifica as principais ameaças climáticas aos municípios brasileiros e propõe ações intersetoriais. Governos locais também vêm avançando nessa agenda, com iniciativas para incorporar a adaptação climática ao planejamento, como ocorre em Gramado (RS) e Petrópolis (RJ). Do mesmo modo, o setor privado precisa fazer a sua parte, incorporando esses riscos às decisões e aos planos de contingência e de continuidade dos negócios.
Preparar-se para o El Niño não significa prever exatamente onde ocorrerá a próxima enchente ou seca. Implica reconhecer que o clima já integra a matriz de riscos empresariais. A antecipação permite às empresas proteger pessoas, reduzir perdas e ampliar sua capacidade de manter as operações diante do próximo evento extremo.
* Respectivamente, presidente e assessora do Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
Artigo originalmente publicado no jornal Diário do Comércio em 14 de setembro de 2026.