Notamos que você possui
um ad-blocker ativo!

Para acessar todo o conteúdo dessa página (imagens, infográficos, tabelas), por favor, sugerimos que desabilite o recurso.

Editorial

19/02/2018

Geopolítica e tecnologia, por José Goldemberg

Em artigo, presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP comenta a evolução das máquinas e da política mundial

Ajustar texto: A+A-

Geopolítica e tecnologia, por José Goldemberg

"Gás e derivados de petróleo representam mais de 50% de toda a energia usada no mundo e alimentam todo o setor de transporte e parte significativa do consumo industrial e doméstico", explica Goldemberg
(Arte/TUTU)

Por José Goldemberg

Os grandes estadistas do século 19, como Talleyrand na França, Mettemich na Áustria e Bisrnarck na Alemanha, definiram o jogo do poder na Europa e nos impérios coloniais com uma mistura da força militar (hard power) e diplomacia (soft power). A tecnologia teve papel reduzido nessas atividades, exceto na produção de armas convencionais, às quais a maioria dos países tinha acesso. Foi por essa razão que a primeira Guerra Mundial durou quatro anos (1914-1918), provocando milhões de mortes e com resultados finais inconclusivos num armistício que levou depois à 2.a Guerra Mundial (1939-1945).

Essa situação mudou a partir de meados do século 20, em razão de desenvolvimentos tecnológicos. E quais são esses desenvolvimentos?

Veja também:
Uma nova Renascença?, por José Goldemberg
Armas nucleares - seu papel no século 21, por José Goldemberg
José Goldemberg: O futuro do automóvel – desejos e realidade
Há uma nova revolução tecnológica em marcha?, por José Goldemberg

Em primeiro lugar, o desenvolvimento de armas nucleares, que levou a um novo equilíbrio entre as grandes potências que as forçou a uma coexistência pacífica e evitou novas guerras mundiais que poderiam devastá-las completamente, como ocorreu com as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, sobre as quais bombas atômicas foram lançadas. Isso, contudo, não evitou conflitos regionais em diversas partes do mundo, como na Coréia, no Iraque, no Afeganistão e em vários países da África, mas não houve guerras globais nos últimos 70 anos, o que é um longo período, sem precedentes nos últimos séculos.

Em segundo lugar, a enorme dependência da civilização moderna do uso do petróleo e gás, cujo comércio foi dominado por um cartel de países exportadores de petróleo (Opep) formado pelos maiores produtores mundiais, do Oriente Médio. Gás e derivados de petróleo representam mais de 50% de toda a energia usada no mundo e alimentam todo o setor de transporte e parte significativa do consumo industrial e doméstico. O fluxo mundial de petróleo e gás na economia mundial é como o sangue que circula no organismo humano, movimentando cerca de US$ 1 trilhão por ano, e seu coração se encontra nas mãos da Opep.

A importância do petróleo é tal que ele chega a ser comercializado a um preço cerca de dez vezes maior do que seu custo de produção (que é cerca de US$ 10 por barril na Arábia Saudita). Isso produziu enormes recursos financeiros, que permitiram aos países-membros da Opep atingir elevado nível de vida, apesar de não disporem de outros recursos naturais.

Esta situação já dura mais de meio século. Mas está começando a mudar, porque vem diminuindo o receio de que a era do petróleo chegue ao fim, uma vez que as reservas começaram a se esgotar em algumas partes do mundo, como no Mar do Norte, ou a produção nas águas rasas da Bacia de Campos, no Espírito Santo.

Por essa razão, o paradigma vigente até recentemente era o de que as reservas de petróleo se esgotariam logo e, à medida que isso fosse acontecendo, seu preço subiría brutalmente, como em 1973. Esse paradigma mudou: existem ainda imensas reservas de petróleo no Oriente Médio e os avanços da tecnologia de exploração em águas profundas (pré-sal), não só no Brasil, como em outros países, ampliaram ainda mais essas reservas. Além disso, os Estados Unidos passaram a liderar a produção de petróleo e gás retirados de rochas impregnadas de hidrocarbonetos, usando novas tecnologias, e por essa razão importam cada vez menos petróleo. E existem hoje mais países produzindo petróleo, incluído o Brasil, do que 20 anos atrás.

Também o consumo de petróleo no mundo tende a cair, porque os automóveis existe aproximadamente 1 bilhão deles no mundo todo são mais eficientes egastam menos gasolina ou óleo diesel do que os modelos antigos para percorrerem a mesma distância.

Mais ainda, outras formas de energia, como a dos ventos, a fotovoltaica, a de biomassa e o etanol, se desenvolveram ejá se tornaram competitivas em muitos casos. Essas tecnologias geram eletricidade, cujo consumo no mundo está aumentando rapidamente. E a tendência é a demanda se acelerar ainda mais. Automóveis elétricos, cuja tecnologia se está desenvolvendo, vão reduzir ainda mais o consumo de petróleo.

Vivemos hoje num mundo em que petróleo é abundante e por essa razão seu custo baixou a até US$ 30 ou US$ 40 por barril. Mais recentemente subiu um pouco, mas a tendência é de baixa, de acordo com muitos analistas. O preço só não caiu mais porque a economia dos países produtores de petróleo liderados pela Arábia Saudita depende dos lucros obtidos com ele e essas nações limitaram a sua produção para manter o preço elevado.

Há aqui um equilíbrio delicado. O que a Opep fez para preservar o seu papel dominante no mercado foi baixar o preço do barril até U$ 30-US$ 40, com o intuito de “quebrar” os seus competidores, o que só conseguiu parcialmente. Sucede que a Opep tem outros instrumentos para dominar o mercado de petróleo no mundo: a Arábia Saudita tem capacidade ociosa de produção e pode aumentar oureduzir rapidamente aquantidade de petróleo que vende, o que os seus concorrentes não conseguem fazer. Por essa razão, apesar de enfraquecido, o cartel da Opep tem ainda enorme poder.

No novo paradigma, o valor das empresas de petróleo não é mais determinado por suas reservas, mas pelo que elas são capazes de produzir e vender. Na linguagem dos economistas, “é melhor ter dinheiro no banco do que petróleo debaixo da terra”.

A política seguida pela Petrobrás a partir de 2002 foi exatamente a oposta. Ela se deveu a um nacionalismo equivocado, em que o importante era preservar as reservas e afastar empresas petrolíferas internacionais de colaborar com a estatal na exploração das reservas do présal, política essa que agora está sendo revertida.

O custo de produção de petróleo da Petrobrás não é tão baixo quanto o da Arábia Saudita, (porque no pré-sal há toda uma infraestrutura a instalar), mas há aqui ainda uma “janela de oportunidades” a aproveitar.

*José Goldemberg é Presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP 
Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 19 de fevereiro de 2018