Legislação
30/04/2026Inteligência Artificial e trabalho: livro inédito discute os desafios da regulação
Lançamento de obra da FecomercioSP tem palestras sobre lacunas regulatórias no País e oportunidades para a gestão de pessoas
Articulistas, autoridades e referências do Direito, da Economia e dos negócios participaram do lançamento do livro / Fotos: Edilson Dias
O presidente em exercício da FecomercioSP, Ivo Dall’Acqua Júnior, refletiu sobre os limites do modelo regulatório atual
Marisa Salgado, partner na Signium Brasil
Marisa Salgado, partner na Signium Brasil
Obra inédita está disponível para download
Convidados receberam uma cópia gratuita da coletânea de artigos
Andriei Gutierrez, presidente do Conselho de Economia Digital e Inovação da FecomercioSP
Rony Vainzof, data advisor da FecomercioSP
Economista Antonio Lanzana, que preside o Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP
Fernando Augusto Sollak, diretor de Relações Humanas da TOTVS
Nesta era de uma invasão irreversível da Inteligência Artificial (IA) em todas as atividades da sociedade moderna, em especial o trabalho, o que ainda falta é clareza sobre como o ambiente regulatório vai responder a essa transformação e quais serão as consequências para trabalhadores e empresas enquanto essa resposta não chega.
Foi com esse pano de fundo que a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) reuniu pesquisadores, executivos e lideranças empresariais, no último dia 23 de abril, para o lançamento do livro O mundo do trabalho na era dos algoritmos, produzido pelo Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação. Estiveram presentes vários dos articulistas que contribuíram para a obra. O conselho, que, há anos, estuda o tema a fundo, enfim, traz um resumo desse aprendizado. Na ocasião, os articulistas interagiram com o público sobre os temas de seus artigos. Acesse:
Acesse: O MUNDO DO TRABALHO NA ERA DOS ALGORITMOS
No evento, Marisa Salgado, partner na Signium Brasil, dedicada ao desenvolvimento de lideranças em ambientes de alta complexidade, trouxe uma leitura sobre onde a IA já está transformando a gestão e onde a tecnologia ainda encontra seus limites. Antes de tudo, sob a perspectiva da eficiência, os avanços são indiscutíveis: gestão de metas em tempo real, projeção de demanda, ajuste de estoques e ecossistemas em que empresas, antes concorrentes, passam a colaborar umas com as outras. Contudo, agora que a ferramenta está mudando os paradigmas e elevando a cobrança por produtividade e resultados, deixar a dimensão humana “por último” na gestão de pessoas pode abrir “flancos” no negócio.
Essa questão demanda uma atenção ainda maior do Varejo, que funciona como o termômetro mais fiel da economia brasileira, justamente porque é onde a tecnologia encontra o humano de forma mais direta e imediata. “Trata-se de um setor de margens justas, intensivo em mão de obra e que, até pouco tempo atrás, era a principal porta de entrada de jovens no mercado de trabalho. Esse papel, porém, vem sendo disputado por plataformas de aplicativos de entrega e transporte, que oferecem renda imediata e flexibilidade”, ponderou Marisa, enfatizando o imediatismo com que muitos jovens encaram o trabalho.
“O Varejo está sentindo isso na retenção. Próximo ao fim do mês, na última semana, o colaborador não aparece, porque é mais vantajoso para ele trabalhar como entregador ou motorista, uma renda líquida ali no dia. Isso tudo traz efeitos e impactos muito severos para a economia”, ressaltou a executiva.
Na relação com o cliente, também há um ponto importante de reflexão nesse sentido. “O consumidor não volta pelo algoritmo, mas pela forma como se sentiu. E isso nenhuma máquina vai ser capaz de substituir. Sentir e fazer sentir ainda são competências essencialmente humanas — e serão estas que vai determinar o jogo competitivo daqui para a frente”, complementou.
O impasse, acrescentou, é ainda mais complexo no Brasil, onde a convivência entre mercados formal e informal, alta insegurança jurídica e pressão por produtividade criam um ambiente em que as dissonâncias entre tecnologia e trabalho aparecem de forma mais crua e urgente.
IA na gestão de pessoas da TOTVS
Fernando Augusto Sollak, diretor de Relações Humanas da TOTVS, a maior empresa de tecnologia do Brasil, trouxe ao evento um relato de como a IA tem sido incorporada não apenas aos produtos da companhia, mas também à própria cultura organizacional. O ponto de partida da sua apresentação foi uma pergunta que, segundo ele, está na mesa de todo gestor: como virar essa chave de forma produtiva e humana?
A resposta que a TOTVS encontrou está sintetizada a equação “inteligência humana + IA”. "A tecnologia é um meio, e não um fim. Ela amplia a capacidade humana, não a substitui. Esse princípio foi formalizado como um pilar da cultura da empresa, ao lado de valores já consolidados como foco no cliente, inovação contínua e geração de resultados sustentáveis”, explicou.
Na prática, isso se traduz em investimentos em educação corporativa. O maior programa de treinamento da TOTVS, hoje, é a trilha de Data e IA, disponível na universidade corporativa da empresa, com conteúdos online e presenciais que garantem que 100% dos colaboradores passem por uma formação inicial sobre o uso da tecnologia, incluindo aspectos de governança, segurança de dados e conformidade legal.
A TOTVS também aposta em agentes de IA capazes de responder sobre remuneração, benefícios, avaliação de desempenho e desenvolvimento de carreira, integrando múltiplas fontes de dados num único canal de atendimento. “O volume de chamados ao time de RH caiu mais da metade, os analistas passaram a dedicar mais tempo a projetos de transformação e atendimento personalizado, enquanto as pesquisas de engajamento apontaram melhoria significativa na percepção de transparência e acesso à informação”, salientou Sollak.

Imprevisibilidade jurídica
O economista Antonio Lanzana, que preside o Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP, chamou a atenção para uma das aplicações menos óbvias dessa tecnologia — a redução do risco trabalhista, diante de regulações mal desenhadas ou interpretadas de forma voluntarista. “A imprevisibilidade criada pelo ativismo judicial é, ela mesma, uma promotora da adoção de IA”, afirmou, recuperando a análise deixada por José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho, aos convidados.
A mensagem de Pastore também levantou perguntas que ainda não têm resposta. Por exemplo, de quem é o direito autoral de uma criação digital? Como remunerar a criatividade dos algoritmos? Como garantir que essas tecnologias respeitem valores humanos sem banalizar a criatividade? “Nossa publicação dá os primeiros passos para solucionar os problemas mais básicos. Mas a caminhada é longa”, concluiu.
Também participaram do debate Andriei Gutierrez, presidente do Conselho de Economia Digital e Inovação da FecomercioSP, autor do artigo sobre as novas fronteiras do trabalho na era digital no livro, e Rony Vainzof, data advisor da FecomercioSP, que abordou governança algorítmica, LGPD e segurança jurídica.
Regulação que não acompanha a realidade é o maior risco
O presidente em exercício da FecomercioSP, Ivo Dall’Acqua Júnior, refletiu sobre os limites do modelo regulatório atual. Ainda que a ferramenta entregue às empresas um ativo essencial no mundo contemporâneo (agilidade) e que isso represente vantagem competitiva real, transformações dessa magnitude carregam complexidade igualmente elevada, de forma que o ordenamento jurídico brasileiro ainda não encontrou resposta adequada para lidar com elas. Enquanto isso, as interpretações na Justiça seguem divergentes. Trata-se de um grande risco para o emprego.
“As plataformas digitais operam a partir de lógicas baseadas em flexibilidade, autonomia e liberdade de organização do tempo de trabalho. Ignorar esse fato é tão problemático quanto desconsiderar a necessidade de proteção social. Não podemos abreviar essa discussão a uma falsa escolha entre emprego formal e desproteção”, disse. “Há espaço e necessidade para inovação sem abrir mão dos sistemas de proteção social”, finalizou.