Editorial
05/10/2026José Goldemberg: ‘Eu ainda quero entender o que causa as coisas’
Com o lançamento de sua biografia, cientista revisita escolhas, embates e decisões de uma trajetória que atravessa da física nuclear à sustentabilidade
Aos 98 anos, José Goldemberg continua movido pela mesma pergunta que o levou à ciência ainda menino: por que as coisas acontecem? Físico, professor, ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP), ex-ministro e uma das principais referências brasileiras em energia e meio ambiente, ele transformou essa curiosidade em método para encarar alguns dos grandes debates do País.
Essa trajetória ganha forma em O nominado José — As muitas batalhas de José Goldemberg, biografia de Jorge Okubaro que inaugura o Notáveis, projeto da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) dedicado a preservar e compartilhar o legado de personalidades que contribuíram para a Entidade e para o País. No lançamento, realizado na última quinta-feira (1º), na sede da Federação, em São Paulo, biografado e biógrafo se encontraram para um bate-papo a respeito dos episódios do livro. Presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP, Goldemberg falou sobre ciência, poder, ditadura, meio ambiente e as escolhas que ajudaram a definir seu caminho.
Com mediação da jornalista Camila Silveira, a conversa deixou o currículo em segundo plano para revelar histórias e um Goldemberg que prefere os fatos às solenidades, desconfia de autobiografias e, diante de problemas, continua procurando causas (e possíveis soluções).
Autoridades e personalidades que fizeram parte da trajetória de José Goldemberg prestigiaram o lançamento do livro (Foto: Edilson Dias)
“Goldemberg reúne uma trajetória marcada pela ciência, educação e pelos grandes debates do Brasil, patrimônio que o Notáveis busca preservar e compartilhar”, afirmou Ivo Dall’Acqua, presidente da FecomercioSP. (Foto: Edilson Dias)
Com mediação de Camila Silveira, conversa revela um Goldemberg além do currículo, entre histórias, escolhas e soluções (foto: Edilson Dias)
O nominado José — As muitas batalhas de José Goldemberg, escrito por Jorge Okubaro, inaugura o Projeto Notáveis, da FecomercioSP (foto: Edilson Dias)
Jorge Okubaro: "Goldemberg é um entendedor dos problemas contemporâneos" (foto: Edilson Dias)
O lançamento também teve sessão de autógrafos com Goldemberg (foto: Edilson Dias)
Camila Silveira — Professor, o senhor se recusou, durante toda a vida, a escrever uma autobiografia. Por quê?
José Goldemberg — Porque existe uma tendência de exagerar aquilo que você fez, não dar crédito suficiente aos outros e justificar o que não conseguiu fazer. Quando Jorge me procurou, disse que poderia dar informações sobre os cargos que ocupei, mas isso estava disponível. O interessante seria procurar as pessoas e perguntar como elas julgavam a minha atuação. Dei uma lista a ele. E não era só de amigos nem de apoiadores. O livro é do Jorge, construído também a partir da avaliação que outras pessoas fazem da minha trajetória.
Camila — Jorge, e como foi encontrar o José por trás do professor Goldemberg?
Jorge Okubaro — Não começou muito fácil. Eu nunca tinha conversado com ele. No primeiro encontro, o professor chegou muito sério e praticamente disse: “Tudo o que vocês precisam saber sobre mim está aqui”. E entregou três recortes de jornal. Neles, havia praticamente o mesmo pequeno parágrafo sobre sua vida pessoal. Nós nos olhamos e pensamos: “Isso não vai ser fácil” [risos].
A partir daí, a questão passou a ser justamente como encontrar o José por trás do professor Goldemberg? Hoje, acho que conseguimos chegar perto.
Camila — Professor, depois de tantos cargos e mudanças de rumo, o que permaneceu?
Goldemberg — Há um emprego que nunca mudei. Sou professor da USP desde 1950. Trabalhei muitos anos como pesquisador em Física Nuclear e, depois, fui mudando de direção. Mas eu queria ser cientista desde a escola primária. Isso me acompanhou durante a vida toda. Eu queria (e ainda quero) estabelecer relações entre causa e efeito. O que causa as coisas? É isso que cientistas fazem.
‘Visto 50 anos depois, parece fácil... mas não era’
Camila — O livro recupera um episódio marcante da ditadura. Como diretor do Instituto de Física da USP, o senhor se recusou a entregar os fichários dos estudantes aos agentes do regime. Como foi aquele momento?
Goldemberg — Era um dia absolutamente normal quando chegaram agentes ligados aos órgãos de repressão da ditadura. Queriam consultar os prontuários dos estudantes, em busca de informações sobre alunos que poderiam estar sendo investigados pelo regime. Respondi que era funcionário público e que aqueles registros eram confidenciais. Se tivessem autorização para acessá-los, deveriam apresentá-la. Eles disseram que eu não estava colaborando com a Pátria. Então, telefonei para o reitor [Miguel Reale] e expliquei o que estava acontecendo. Ele pediu que os agentes fossem até seu gabinete. Nunca mais voltaram ao instituto para fazer aquele tipo de solicitação.
Hoje, parece fácil contar, mas não era. Acho que a formação científica ajudou nessas situações. Diante de acontecimentos sérios, você precisa manter a frieza e olhar para os fatos.
Camila — E dessa época veio o curioso “nominado” que dá título ao livro. Jorge, como você encontrou essa história?
Okubaro — Durante a pesquisa, encontrei um relatório confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI), de 1979, sobre Goldemberg. O documento repetia uma expressão burocrática: “o nominado”. “O nominado encontrava-se...”; “o nominado foi objeto...”; “a linha política e ideológica do nominado...”. Quando vi aquilo, pensei: “Está pronto o título, O nominado José”. Porque havia ali dois lados da mesma pessoa. O “nominado”, investigado pela ditadura, e o José fora da vida pública — o pai, o avô, o homem por trás do professor Goldemberg.
‘O papel não tem cor’
Camila — Professor, o senhor passou pela universidade e por diferentes funções públicas. O que a ciência ensinou sobre o poder?
Goldemberg — O cientista sabe algumas coisas que os outros não sabem. Em determinadas situações, você tem a oportunidade de explicar aquilo com clareza para quem precisa tomar uma decisão. E, aí, é preciso ter absoluta clareza e coragem. Porque uma informação errada — ou desagradável — pode custar a sua posição.
Camila — A experiência no poder mudou sua maneira de enxergar os problemas?
Goldemberg — Quando você ocupa uma função executiva, os problemas chegam para serem resolvidos. Aparece um papel para assinar, e o papel não tem cor. Há uma situação concreta diante de você, e é preciso decidir com base nos fatos. Passei por vários episódios assim. Um deles ocorreu em meio às discussões sobre uma possível corrida nuclear entre Brasil e Argentina. Havia suspeitas acerca de programas secretos para o desenvolvimento de armas atômicas e surgiram informações sobre estruturas na Serra do Cachimbo, no Pará, que poderiam ser usadas para testes nucleares. Fui chamado pelo presidente Fernando Collor para explicar as vantagens e as consequências de o Brasil desenvolver uma arma nuclear. Disse o que sabia, mas também deixei claro o que não sabia, justamente porque se tratava de programas secretos. Recebi, então, autorização para visitar as instalações nucleares do País e verificar o que estava sendo feito.
Nessas situações, é preciso buscar os fatos, entender o problema e explicar com clareza aquilo que você sabe, mesmo quando não é o que os outros gostariam de ouvir.
Um entendedor de problemas
Camila — Jorge, Ricardo Goldemberg diz no livro que a grande profissão do pai é resolver problemas: diagnosticar, criar soluções e implementá-las. Depois de mergulhar nessa trajetória, você concorda?
Okubaro — É uma boa síntese. Ele é um resolvedor de problemas. Mas acho que há uma dimensão maior. Goldemberg é um entendedor dos problemas contemporâneos. A curiosidade científica o levou a áreas diferentes, Energia, Universidade, Gestão Pública, Meio Ambiente, Sustentabilidade. E, quando entra em um assunto, entra com profundidade. Talvez essa seja uma das forças do livro. Não estamos olhando apenas para o passado. Muitas das questões que atravessaram a vida de Goldemberg continuam muito presentes.
Camila — Professor, então ainda há batalhas pela frente?
Goldemberg — Foram muitas batalhas. E algumas delas continuam [risos].
Os Notáveis
O nominado José — As muitas batalhas de José Goldemberg, escrito por Jorge Okubaro, inaugura o Projeto Notáveis, da FecomercioSP, iniciativa criada para registrar e compartilhar a trajetória de personalidades que contribuíram para a história da Entidade e para grandes debates do Brasil.
Além de Goldemberg, integram o projeto José Pastore, Ives Gandra Martins e Abram Szajman. Ao transformar essas experiências em livros e conteúdos multimídia, o Notáveis busca aproximar diferentes gerações de histórias que também ajudam a compreender o País.