Economia
29/09/2026Juros altos têm raiz no desequilíbrio fiscal
Ao BC, FecomercioSP propõe medidas para fortalecer ambiente de crédito aos pequenos negócios
O debate recorrente sobre taxas de cartão e parcelamento tende a ressurgir sempre que o orçamento das famílias aperta. Mas trata-se apenas de um sintoma de um problema mais profundo: há anos, o Brasil apresenta crescimento insuficiente da produtividade e da renda por habitante, baixa taxa de investimento e um quadro fiscal que mantém elevada a percepção de risco. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,3% e o PIB per capita avançou 1,9%, enquanto a taxa de investimento ficou em apenas 16,8% do PIB.
Essa avaliação faz parte de um estudo elaborado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), levado formalmente ao presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo.
O material detalha a dimensão do desequilíbrio fiscal: em junho de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) atingiu 81,9% do PIB (R$ 10,8 trilhões); nos 12 meses até então, o setor público acumulou déficit primário de R$ 157,2 bilhões, enquanto os juros nominais somaram R$ 1,16 trilhão, equivalente a 8,8% do PIB. A Selic, fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em 14% ao ano em agosto de 2026, segue em patamar elevado e restritivo.
Esses fatores compõem uma cadeia de efeitos — desequilíbrio fiscal, maior percepção de risco, juros mais altos, crédito mais caro e menor consumo e investimento. Discutir apenas a última etapa dessa cadeia (o preço cobrado no cartão) significa ignorar uma parte importante do processo.
Concorrência, sim; tabelamento, não
Ao BC, a FecomercioSP reforçou a defesa por mais concorrência entre instituições financeiras, adquirentes, bandeiras e emissores, com mais transparência tarifária. Contudo, a Federação alertou para as consequências de um eventual tabelamento direto de juros, medida que não elimina os custos que compõem o preço do crédito e pode apenas restringir a oferta, excluindo clientes de maior risco.
O estudo também recomenda a manutenção do modelo atual do parcelado sem juros, hoje uma opção do comerciante prevista na Lei 13.455/2017. Essa modalidade tem um papel central na formação de preços e no estímulo às vendas, especialmente para Micro e Pequenas Empresas (MPEs).
A agenda estrutural proposta pela Federação ao órgão segue seis frentes:
- recompor a credibilidade fiscal;
- melhorar a eficiência do gasto público;
- avançar em reformas que aumentem produtividade e renda per capita;
- aprofundar a concorrência no sistema financeiro;
- fortalecer a educação financeira;
- preservar a liberdade de consumidores e empresas para definir preços e condições comerciais, com intervenção apenas diante de falhas de mercado comprovadas.
Ao BC, a FecomercioSP propõe que as instituições financeiras adotem políticas de concessão e precificação de crédito mais favoráveis a consumidores com histórico consistente de adimplência e menor risco.