Economia
14/05/2026Juros, inflação e efeito calendário fazem Comércio paulista registrar um dos piores resultados em vendas para fevereiro
Oito das nove atividades pesquisadas sofreram queda no faturamento; no acumulado do primeiro bimestre, houve retração de 5,4%
As vendas do Comércio varejista paulista registraram queda de 7,5% em fevereiro, em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados da Pesquisa Conjuntural do Comércio Varejista (PCCV), elaborada mensalmente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) em parceria com a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz/SP) apontam para um dos piores resultados da série histórica para o mês de fevereiro. O faturamento real atingiu R$ 110,1 bilhões, valor R$ 8,9 bilhões inferior ao apurado ao mesmo período de 2025 [tabela 1].
[TABELA 1]
Faturamento Comércio Varejista — Estado de São Paulo
Fonte: Sefaz-SP/FecomercioSP

Segundo a avaliação da FecomercioSP, o cenário de desaceleração do consumo das famílias já era esperado, tanto pela forte base de comparação quanto por aspectos macroeconômicos — como juros altos, que impactam as vendas de bens duráveis, dependentes de crédito. Vale ressaltar, porém, que essa queda foi potencializada pelo efeito calendário, já que o carnaval neste ano ocorreu em fevereiro (em 2025, foi março), resultando em menos dias úteis e afetando o faturamento do setor.
A variação acumulada no primeiro bimestre ficou negativa em 5,4%, o que representa um faturamento R$ 13,1 bilhões inferior ao obtido no mesmo período do ano passado. Já no acumulado em 12 meses, o varejo ainda apresenta crescimento (1,8%), indicando que a desaceleração é mais recente, concentrada nos últimos meses.
Dentre as atividades pesquisadas, oito apresentaram retração em seu faturamento: eletrodomésticos, eletrônicos e lojas de departamento (-23,2%); lojas de móveis e decoração (-13,9%); materiais de construção (-13,1%); outras atividades (-12,4%); autopeças e acessórios (-9,9%); concessionárias de veículos (-5,7%); supermercados (-3,5%); e lojas de vestuário, tecidos e calçados (-3,4%), apontando um movimento de queda disseminado entre os segmentos. Apenas farmácias e perfumarias apresentaram estabilidade, mantendo o nível de faturamento em relação ao mesmo período do ano anterior [tabela 2].
[TABELA 2]
Faturamento Comércio Varejista — Estado de São Paulo
Fonte: Sefaz-SP/FecomercioSP

As maiores quedas foram observadas em segmentos dependentes de financiamento e sensíveis ao custo de crédito, que também refletiram o movimento de redução nas compras, especialmente em um cenário de orçamento já pressionado. No entanto, nos segmentos ligados ao consumo básico, como supermercados e farmácias, o desempenho se mostra mais resiliente.
Para a Entidade, esse comportamento sugere um processo de recomposição do orçamento doméstico, no qual os consumidores ajustam gastos, substituem produtos e buscam alternativas mais econômicas, sem deixar de atender às necessidades essenciais dos lares.
Faturamento do Comércio na capital recua mais de 10%
As vendas do varejo na capital paulista em fevereiro também sofreram queda (-10,5%) em comparação com o mesmo período do ano passado. Trata-se de um dos piores resultados para fevereiro na série histórica. A cidade atingiu uma receita de R$ 32,9 bilhões no mês, sendo uma redução de R$ 3,9 bilhões frente a fevereiro de 2025. O acumulado do ano — que foi negativo (-7,7%) —, em termos de valores, representa uma retração de cerca de R$ 5,7 bilhões, em comparação com o ano anterior.
[TABELA 3]
Faturamento Comércio Varejista — Cidade de São Paulo
Fonte: Sefaz-SP/FecomercioSP

Na capital paulista, foram observadas quedas em todas as atividades, indicando um cenário de enfraquecimento disseminado da demanda, puxada por segmentos com maior peso no faturamento. Isso significa que a retração não está concentrada apenas nos bens duráveis: o desempenho dos supermercados sugere que o ajuste no consumo já atinge também os itens essenciais, refletindo um quadro de compressão mais ampla do orçamento familiar. Da mesma forma, as quedas em farmácias e vestuário reforçam a percepção de redução do consumo, inclusive em categorias recorrentes.
A explicação está no elevado custo de vida, aliado ao peso das despesas fixas — como moradia, transporte e serviços —, que reduz a renda disponível para consumo no varejo. Além disso, o perfil urbano torna o consumo mais sensível às condições financeiras e às mudanças de comportamento.
De acordo com a FecomercioSP, o contexto de taxas de juros elevadas, condições de crédito e alto nível de endividamento familiar limita a capacidade de consumo, principalmente para bens de maior valor agregado. Dessa forma, observa-se um comportamento mais cauteloso por parte dos consumidores, que priorizam as despesas essenciais e postergação de compras não urgentes.
Ademais, pesquisas indicam que o avanço das apostas online tem exercido pressão adicional sobre o orçamento doméstico, contribuindo para o aumento do endividamento e reduzindo a capacidade de consumo em outros segmentos. Então, as apostas passaram a atuar também como um fator concorrente ao varejo tradicional, ao disputar parcela da renda disponível da população, especialmente em gastos não essenciais.