Economia
23/04/2026Mercado de software e IA aceleram transformação da economia digital
Brasil está entre os maiores investidores em TI; avanço da tecnologia impulsiona conectividade global
O Brasil está reforçando a sua posição de destaque na economia digital global, consolidando-se entre os países que mais investem em Tecnologia da Informação (TI) e ampliando o grau de maturidade digital. Esse movimento é evidenciado por um estudo sobre o mercado de software que analisa o panorama mundial e as tendências do setor, ao oferecer um retrato atualizado dos investimentos em tecnologia. O levantamento, realizado pela Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), em parceria com a IDC, aponta o País como uma das dez economias que mais investem na área.
Com a participação de cerca de 110 países, o estudo revela que os investimentos globais em TI somaram US$ 4,2 trilhões em 2025. No topo da lista, estão os Estados Unidos, com 36% dos investimentos totais, seguidos por China, Reino Unido, Japão, Alemanha, França, Índia, Canadá, Austrália e Brasil.
Na América Latina, a injeção de recursos somou US$ 176,6 bilhões no último ano. O Brasil se destaca na região, com mais de 38% dos aportes, seguido por México (24,2%), Colômbia (7,8%), Argentina (6,2%), Chile (5,8%) e Peru (4,3%).
Contrariando as expectativas, no ano passado, o País cresceu 18,5% em alocações de recursos, enquanto no restante do mundo os investimentos no setor avançaram 14,1%. Os aportes nacionais totalizaram US$ 67,8 bilhões. Desse total, US$ 32,5 bilhões foram direcionados ao segmento de hardware; US$ 21,7 bilhões, ao de software; e US$ 13,6 bilhões, ao de serviços.
Sofisticação dos investimentos
A média global indica que os recursos são destinados principalmente ao hardware (47%), seguido por software (31%) e serviços (22%). De acordo com Jorge Sukarie, fundador e presidente da Brasoftware, quanto maior o investimento em tecnologia e inteligência — como software e serviços —, maior o grau de consolidação digital de uma nação.
No Brasil, os investimentos seguem padrão semelhante ao do restante do mundo: hardware representa 48%; software, 32%; e serviços 20%. “O Brasil tem convergido para a média global de investimentos. Quando começamos o estudo, há 22 anos, o País investia 67% em hardware; hoje, são 48%. Isto é, temos nos aproximado da média mundial, aumentando, assim, o nosso grau de maturidade”, ressaltou Sukarie.
Em comparação com outros países emergentes, o ecossistema nacional se destaca, especialmente frente à China, que ainda concentra grande parte dos investimentos em hardware. “Ao observar apenas software e serviços, o Brasil também ocupa uma posição de destaque”, disse o fundador e presidente da Brasoftware, durante reunião do Conselho de Economia Digital e Inovação da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), realizada na última sexta-feira (17).
Incertezas freiam expectativas para 2026
Apesar do crescimento observado no ano passado, a perspectiva para 2026 é mais moderada. O Brasil deve crescer 5,3%, enquanto o restante do mundo tende a avançar 9,7%. Segundo Sukarie, fatores como inflação persistente, juros elevados e instabilidade geopolítica ajudam a explicar o cenário mais cauteloso.
No caso nacional, somam-se o ano eleitoral, que tende a reduzir investimentos, além da Copa do Mundo, que impacta a produtividade, e incertezas ligadas à regulamentação do IBS e da CBS na Reforma Tributária, que permanece sem a definição da alíquota.
“Todos esses fatores acabam influenciando o apetite dos empresários e podem ter levado o Brasil a esse patamar. Não lembro de ter visto, nos 22 anos de estudo, o Brasil com uma previsão de crescer metade da média mundial”, comentou.
Apesar dessa estimativa, o especialista acredita que o País ainda pode surpreender e superar essa perspectiva. Atualmente, os setores de Telecomunicações, Finanças e Indústria são os que mais investem em TI. Já áreas como Comércio e Serviços ainda apresentam grande potencial de expansão nesse tipo de investimento.
IA segue redefinindo a economia digital
Mais do que o volume de investimentos, o avanço da economia digital tem demonstrado que mercados e países precisam se preparar para uma transformação tecnológica acelerada e cada vez mais complexa. Nessa conjuntura, a Inteligência Artificial (IA) se consolida como uma das principais ferramentas, deixando o campo conceitual e avançando para aplicações reais.
“O tema de IA foi o mais citado no Mobile World Congress, e mais de 70% dos expositores mostraram suas soluções com a aplicação da ferramenta”, afirmou Márcio Kanamaru, conselheiro-executivo da Kryptus e da NTT DATA, que participou da 20ª edição do evento anual sobre conectividade e tecnologia móvel, realizado em março deste ano.
De acordo com ele, todas as grandes operadoras de telecomunicações apresentaram projetos com agentes de IA durante o evento. Além disso, a integração da tecnologia ao mundo físico pôde ser observada na robótica, com o uso de visão computacional para controle de qualidade, manutenção preditiva na logística e automação industrial. Esse avanço converge com o uso de gêmeos digitais (modelos virtuais de um objeto físico) e tecnologias de realidade aumentada, entre outras áreas.
Ademais, as redes móveis passam a ser cada vez mais definidas pela ferramenta. A aplicação da IA tem ajudado a superar lacunas, como a escassez de profissionais de telecomunicações, além de lidar com a crescente complexidade desses sistemas. Com a IA, as redes ganham mais inteligência, reduzem a latência (tempo de resposta) e passam a contar com uma gestão mais preditiva.
Soberania digital é política de Estado
Há também uma preocupação maior com a concentração de poder em grandes empresas. O avanço acelerado da IA aponta a necessidade de investimento em segurança digital e soberania de dados, em um quadro de crescente disputa global pelo controle tecnológico.
Nesse contexto, cresce a tendência de desenvolvimento de IAs locais, mais seguras e reguladas, especialmente em locais como Oriente Médio e Europa. Essas regiões vêm se movimentando diante da dependência das grandes empresas mundiais de tecnologia e modelos de linguagem, consolidando a chamada soberania digital como uma estratégia de Estado.
Monetização do 5G e avanço para o 6G
Ao mesmo tempo, o retorno sobre investimento (ROI) se torna cada vez mais importante como critério para adoção de soluções corporativas. Da mesma forma, o mercado passa a discutir a monetização do 5G, com aplicação em setores como Indústria, Agro e Saúde.
“Vemos também os primeiros protótipos do 6G, nascendo com a IA integrada. Esses protótipos já foram testados na Europa, na Coreia e na China com bandas acima de 100 GHz. Vemos uma discussão grande, já posta à mesa durante o Mobile World Congress, sobre a necessidade de um espectro maior ou igual a 400 MHz para poder utilizar a capacidade do 6G”, acrescentou Kanamaru.
O especialista também citou a expansão massiva de datacenters e da computação de borda (processamento de dados mais próximo do usuário), de forma integrada às redes 5G e 6G. No Brasil, a expectativa é que o 6G esteja disponível a partir de 2030.
Conectividade em qualquer lugar
Outro movimento relevante e disruptivo é a evolução dos dispositivos, com o avanço do conceito de Direct-to-Device (D2D), com conexão direta via satélite. Isso significa que o celular passa a ter uma cobertura praticamente global. “Em outras palavras, você poderá utilizar o celular com uma cobertura irrestrita em qualquer lugar do planeta — ou mesmo fora dele”, explicou o executivo da Kryptus.
Com a expansão dessa conectividade, surgem também novos desafios regulatórios, já que o acesso passa a ocorrer via satélite e fora das estruturas tradicionais de redes terrestres. Ao mesmo tempo, a tendência aponta para smartphones com IA nativa (IA no chip), ampliando a capacidade dos dispositivos com processamento local, sem depender da nuvem e com menos latência, o que também traz preocupações necessárias com os limites e a própria cibersegurança.
Computação quântica ainda distante do Brasil
Enquanto isso, no mundo, o avanço de tecnologias emergentes, como a computação quântica, ganha cada vez mais relevância. Para o ambiente doméstico, no entanto, o campo ainda é pouco desenvolvido: “O Brasil ainda está fora dos grandes circuitos de computação quântica do mundo”, destacou Kanamaru.
Segundo ele, apesar da formação de profissionais qualificados, a maior parte acaba sendo absorvida por mercados internacionais mais avançados, como Estados Unidos, China, Alemanha, Reino Unido e França. “Infelizmente, ao se formarem doutores e pós-doutores na área, pelo menos 9 em cada 10 saem do Brasil já contratados por grandes centros.”
De acordo com o executivo, a tecnologia tem tido seu potencial ampliado pela integração com a IA, principalmente em modelos híbridos capazes de lidar com problemas que a computação clássica não consegue processar com eficiência. Dentre os principais casos de uso, destacam-se as simulações complexas, como análises ambientais, climáticas, sísmicas e aplicações em biomedicina. Apesar do avanço, a computação quântica ainda lida com limitações, como custo alto e aplicações ainda restritas.
A expectativa, porém, é de que, com a gradual democratização e a integração com a computação clássica, mediante o desenvolvimento contínuo do hardware e do software, a sua presença se amplie nos próximos três a cinco anos, com aplicações cada vez mais próximas da vida moderna atual de outros países desenvolvidos.