Economia

11/05/2015

Mobilidade urbana é ponto-chave na insatisfação do paulistano com a cidade

Privação do movimento é problema socioeconômico que não tem sido enfrentado com a devida importância

Mobilidade urbana é ponto-chave na insatisfação do paulistano com a cidade

Por Rachel Cardoso

Em São Paulo, a qualidade de vida na cidade é estável para metade da população, e melhorou um pouco ou muito, em relação ao último ano, para 37%. É o que mostra a edição de 2015 da pesquisa Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município (IRBEM), que avalia o nível de satisfação dos paulistanos em relação à qualidade de vida e ao bem-estar e registrou nota de 5,1 este ano. Encomendado pela Rede Nossa São Paulo e pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) ao Ibope, o levantamento ouviu 1.512 pessoas sobre 25 temas relativos às condições de vida na cidade, tais como saúde, educação, meio ambiente, habitação, trabalho e transporte.

Ao comentar os resultados, o professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro, destaca que a maior insatisfação demonstrada pelos paulistanos é em relação à política. “Notas tão ruins nessa área influenciam o restante”, avalia. Outro ponto de destaque é a privação do movimento, um problema socioeconômico e que não tem sido enfrentado com a devida importância. De metrô, carro, ônibus, bicicleta ou a pé, o paulistano gasta, diariamente, uma média de 2h46 para se deslocar pela cidade, segundo o instituto.

A mobilidade urbana se reflete diretamente na desigualdade social. Com o ônus das horas perdidas para se mover de um local a outro, as chances de abandono de emprego e, principalmente, dos estudos, são altas – um fator que cria uma barreira ao desenvolvimento econômico. Trata-se de uma questão cada vez mais presente na área de recursos humanos das empresas, pois a mobilidade está intrinsicamente ligada à qualidade de vida e à produtividade.

A ciclovia é uma opção para amenizar o caos, assim como os corredores de ônibus, que já reduziram um pouco o sufoco de quem depende unicamente desse tipo de condução. Desde 2013, a cidade tem cerca de 320 quilômetros de faixas exclusivas e, segundo levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), os ônibus na cidade de São Paulo estão 68% mais rápidos nessas pistas. O aumento na velocidade dos ônibus talvez seja um dos maiores responsáveis pelo convencimento do paulistano sobre a necessidade das faixas exclusivas: segundo o Ibope, nove em cada dez paulistanos são favoráveis à ampliação das faixas exclusivas de ônibus na cidade.

Isso não significa, porém, que as pessoas deixarão de usar o carro. De 2013 para 2014, subiu de 27% para 38% o número de paulistanos que usam o veículo todos os dias (ou quase todos os dias), e de 52% para 62% a quantidade dos que têm carro em casa, um acréscimo que foi registrado em todas as faixas de renda, escolaridade e regiões da cidade. Por que o paulistano apoia medidas que incentivam o transporte público se, ao mesmo tempo, não deixa o carro na garagem? “Essas coisas não são automáticas e demandam tempo e cultura”, disse o prefeito Fernando Haddad, presente no evento de apresentação da 6ª edição da IRBEM. Para ele, os avanços são graduais. “Em São Paulo, se não planejar no longo prazo, você estará rifando o futuro das novas gerações”, comentou.

Para Oded Grajew, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, o resultado do IRBEM é um dos canais de diálogo eficiente entre a sociedade e a prefeitura. “Todas essas estatísticas podem se transformar em um instrumento poderoso de planejamento e ação”, afirma. Ele destaca que o atual modelo de desenvolvimento, se não mudado, irá provocar um grande desastre.

Mas trata-se de uma mudança que vai demandar quanto tempo o Poder Público quiser, já que depende dos governos – municipal, no caso de ônibus e estadual, para metrô e trens – investir no transporte público para que as pessoas passem, de fato, a preferir o transporte público ao carro. Os movimentos sociais pela mobilidade na cidade convocam o paulistano a deixar o carro na garagem. Agora, se grande parte da população aderir ao movimento, a cidade daria conta de atender a tanta gente?

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