Negócios
27/01/2026O que esperar para a economia brasileira em 2026?
Além do ambiente de juros restritivos, somam-se fragilidades estruturais, especialmente no campo fiscal
Por Guilherme Dietze*
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou recentemente que “está bem claro por que estamos com os juros em patamar restritivo e por que entendemos que vamos permanecer”. Essa sinalização representa um balde de água fria para aqueles que consideravam uma redução dos juros já no início do ano, o que traz reflexos importantes na economia. A expectativa, agora, é de manutenção da taxa básica em torno de 15% ao ano por um período mais prolongado, com a possibilidade de um ciclo de redução apenas no segundo semestre de 2026.
A inflação vem dando sinais claros de arrefecimento. O índice acumulado em 12 meses recuou para 4,46% em novembro, ficando abaixo do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, de 4,5%, algo que não ocorria desde setembro do ano anterior. Ainda assim, permanece distante do centro da meta, de 3%, objetivo perseguido pelo atual presidente do Banco Central. Além disso, de acordo com o boletim Focus, a inflação projetada para os próximos três anos não deve convergir para esse patamar.
Nesse contexto, a manutenção dos juros em níveis elevados encarece o crédito para famílias e empresas e, por consequência, inibe um crescimento econômico mais robusto. Para 2026, a projeção é de que o PIB (Produto Interno Bruto) avance cerca de 1,8%, ligeiramente abaixo dos 2,1% estimados para este ano.
Trata-se, ainda, de um desempenho inferior ao crescimento esperado da economia global, estimado em 3,1%, bem como abaixo da média da América Latina, de 2,3%, e de países como China, com 4,2%, e Índia, com 6,2%.
Além do ambiente de juros restritivos, somam-se fragilidades estruturais da economia, especialmente no campo fiscal. Segundo o Instituto Fiscal Independente do Senado Federal, o déficit primário deve alcançar R$ 90 bilhões. Esse resultado negativo pressiona a trajetória da dívida pública, que passou de 71% do PIB no início de 2023 para um patamar próximo de 80% ao final de 2025, com tendência de elevação adicional em 2026.
Em um cenário convencional, tais vulnerabilidades fiscais tenderiam a pressionar o real. No entanto, as políticas adotadas por Donald Trump nos Estados Unidos têm contribuído para a desvalorização da divisa americana frente a uma cesta de moedas globais, o que beneficia, em alguma medida, a moeda brasileira. Soma-se a isso o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, fator que também tem favorecido o real e colaborado para uma inflação mais moderada.
No cenário internacional, o menor crescimento global impõe dificuldades à expansão das exportações brasileiras, o que aumenta a dependência do mercado doméstico. Contudo, esse mercado enfrenta limitações impostas pela política monetária restritiva e pelos juros elevados.
Dessa forma, a expectativa para a economia brasileira em 2026 é de manutenção de um ritmo de crescimento semelhante ao observado em 2025, com desafios relevantes, especialmente no âmbito fiscal e da dívida pública, que dificilmente serão enfrentados de maneira estrutural no próximo ano por conta do calendário eleitoral.
Ao mesmo tempo, os empresários terão novos elementos no horizonte, como o início da transição da reforma tributária e a nova taxação de dividendos. Assim, o empresário brasileiro seguirá arcando com uma carga tributária elevada e convivendo com incertezas recorrentes. Ainda assim, a experiência histórica demonstra a notável capacidade de adaptação do setor produtivo no país.
*Economista e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP
Artigo publicado originalmente no portal Hotelier News