Editorial

13/08/2019

Temas como falta de diálogo e intolerância a divergências humanas dão sensibilidade à peça “O Inoportuno”

Apresentação é adaptação do texto do dramaturgo inglês Harold Pinter, ganhador do Nobel de Literatura

Temas como falta de diálogo e intolerância a divergências humanas dão sensibilidade à peça “O Inoportuno”

Para ator André Junqueira, o que acontece com esses personagens é uma dificuldade muito grande de aceitação do comportamento dos outros
(Arte: Tutu)

Em cartaz no Teatro Raul Cortez, o espetáculo O Inoportuno coloca no palco uma trama simples que dá vida a características um tanto absurdas de três personalidades, tudo para contar uma história sobre a convivência humana, sobre como pessoas tão diferentes podem dividir o mesmo espaço.

O espetáculo The Caretaker – título original – foi criado pelo dramaturgo inglês Harold Pinter (1930-2008) no final da década de 1950. Ele é reconhecido mundialmente pelos trabalhos artísticos e pelos prêmios que ganhou ao longo da carreira. Em 2005, inclusive, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Esta é a primeira vez que a peça entra em cena no teatro da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Na trama, Davies (Daniel Dantas), um forasteiro que, após perder os documentos ao se envolver em uma briga de bar, é resgatado por Aston (André Junqueira) e levado a um apartamento lotado de coisas velhas para passar a noite. Conforme a história avança, Davies, que visivelmente não tem outro lugar para ir, é convidado a ser o zelador desse prédio miserável e quase abandonado, enquanto ambos tentam encontrar uma forma de viver juntos.

As tentativas de estabelecer um ambiente que seja minimamente harmonioso são perturbadas pela presença disruptiva de Mick (Well Aguiar), irmão de Aston, um sujeito imprevisível que não perde as oportunidades de intimidar Davies. O velho, por outro lado, é colocado sob suspeita a todo instante, assim como tudo o que diz, por se apresentar como Bernard Jenkins em algumas ocasiões.

Ainda que o texto seja antigo, a adaptação consegue falar com o cotidiano ao transitar por problemas sociais como a falta de moradia, decadência econômica, crise de identidade, relacionamentos conturbados entre pessoas que não se ouvem e não se entendem, convivência amparada em mentiras, preconceito, isolamento e ainda o valor do homem pela realização de um ofício.

A trama também se desenvolve para um jogo de poder entre os irmãos, cada um com planos para o apartamento, influenciando Davies a aderir a diferentes perspectivas quanto às vulnerabilidades e absurdos de personalidade de cada um dos dois.

Para o ator André Junqueira, o que acontece com esses personagens é uma dificuldade muito grande de aceitação do comportamento dos outros e isso retrata bem as relações modernas. “É um espetáculo extremamente humano. O que esses personagens têm para fazer é conversar, mas eles não dialogam; eles falam, mas no fundo, parece que não estão falando uns com os outros. Eu acredito que a trama esteja muito ligada ao que acontece hoje em dia: as pessoas não se aceitam com seus defeitos e limitações. O ser humano não está se permitindo se ver no outro, está perdendo a capacidade de aceitação das diferenças e divergências humanas que existem”, comenta.

A direção é de Ary Coslov, responsável por dezenas de obras na teledramaturgia; e a tradução do texto é de Alexandre Tenório.Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do teatro ou pelo site Ingresso Rápido.

Serviço:
O Inoportuno, de Harold Pinter
Local: Teatro Raul Cortez – Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista, São Paulo.
De 2 de agosto a 29 de setembro de 2019.
Sextas, às 21h30; sábados, às 21h e domingos, às 19h.
Classificação: 12 anos
*Para entrar em contato com o Teatro Raul Cortez, telefone para (11) 3254-1633 ou envie um e-mail para teatro.raulcortez@fecomercio.com.br