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Conselho de Economia Empresarial e Política

29/01/2021

Carta de conjuntura – janeiro 2021

Eleição de presidente da Câmara será o maior fenômeno econômico do ano

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Carta de conjuntura – janeiro 2021

 Antonio Lanzana e Paulo Delgado, copresidentes do CEEP
(Arte:TUTU)

Cenário político nacional

O governo continua sem articulação eficaz no Congresso. Desde que a Casa Civil se retirou da coordenação política e entregou a função ao ministro Paulo Guedes, as condições se deterioraram, e o ministro mostrou não ter condições de fazer tudo ao mesmo tempo. Isso diminui a probabilidade de reformas estruturais com qualquer um dos candidatos às presidências tanto da Câmara, quanto do Senado. Por outo lado, as minirreformas de concessões e privatizações podem ter outra direção: o ministro Tarcísio de Freitas é um ótimo articulador político e tem trânsito no Congresso.

As eleições na Câmara estão mais indefinidas do que no Senado: Baleia Rossi se enfraquece ao ter que fazer concessões à esquerda para obter apoio, e Arthur Lira também se torna vulnerável quando precisa mostrar que, apesar de governista, não vai colocar o Congresso aos pés do Executivo. De qualquer forma, Lira é mais organizado internamente na Câmara do que a imprensa mostra, apesar do currículo pessoal mais polêmico. Hoje, a maioria se mantém em silêncio, sinal de que existe equilíbrio e pressão externa – tanto do governo como da opinião pública. O voto remoto é um complicador para os dois lados, por exemplo, o número de candidatos inviáveis pode levar a decisão para o segundo turno.

Especialistas falam dos desafios fiscais e das perspectivas econômicas para o Brasil

O presidente Jair Bolsonaro sofreu derrotas política e de imagem ao ter que assumir a vacina do Estado de São Paulo, assim como o Ministério da Saúde. Bolsonaro jogou fora a grande chance de se tornar o líder que unificou a luta contra pandemia no Brasil.

Cenário econômico nacional

A situação política traz muita incerteza à economia. É possível que ocorra queda de atividade no primeiro trimestre, como mostram os sinais de desaceleração observados em vários indicadores antecedentes. Esta situação é reforçada pelas restrições com a segunda onda e com o fim do auxílio emergencial. Além disso, a falta de ajuste fiscal limitará o crescimento potencial.

A alta incerteza e o balanço de riscos devem mudar as previsões do boletim Focus de crescimento para menor ao longo do ano. Isso joga um grau de incerteza maior no Banco Central (BC), que deve esperar para ver atividade e câmbio, antes da mudança de juros. China crescendo, commodities em alta e dólar depreciado (por incerteza) aumentam o desafio da decisão de juros.

Por outro lado, as previsões de inflação do Focus estão dentro do cenário para 2021, o que é um bom sinal, mas os riscos permanecem: problema da pandemia, questão fiscal e eleições no Congresso.

A pandemia pode ainda levar a uma irresponsabilidade fiscal que poderia ser um risco à inflação. Os serviços pós-vacina são um risco setorial. Mesmo com o balanço de riscos, a inflação deve ficar próxima de 3% neste ano.

A situação fiscal está “travada” pelo teto de gastos, mas há uma regra que pode dar alívio ao governo no ano que vem: a inflação considerada para o teto é de julho a junho, que foi alta e que poderá aliviar esse teto em 2022. De qualquer maneira, deve haver pressão menor do preço das commodities, câmbio mais estável e demanda mundial por essas commodities mais amena.

Um destaque sobre a inflação: em 2020, analisando-se o IPCA, verifica-se que, entre agosto e dezembro, o preço dos alimentos semielaborados cresceu 17%, o que já explica 1,6% da inflação do ano passado. É muito pouco provável que este fato se repita.

O crédito dirigido está indo muito bem, tanto para automóveis como para imóveis, que cresceram demais. O crédito consignado, muito usado por funcionários públicos, é um exemplo. O crédito foi mais público do que privado. O ano de 2021 deve ser difícil no começo e morno no fim; sendo assim, o crédito deverá ficar apenas para rolagem, sem grandes novas concessões.

Comércio – e dentro deste setor, os supermercados – teve alta relevante em 2020 para um ano de pandemia. Algumas informações podem ajudar a entender: as vendas nos supermercados, em 2020, cresceram 3,5% em São Paulo, enquanto no Brasil deve ficar próximo a 4,2%, puxadas pelas regiões Nordeste e Norte, em virtude do auxílio emergencial. O indicador de confiança do consumidor mostra comportamento estável, mas, até setembro, mantinha um nível alto.

A perspectiva para 2021 é mais modesta, sem auxílio emergencial, com incertezas políticas e severidade da segunda onda – fatores que limitam crescimento.

Cenário internacional

Três pontos importantes merecem ser acompanhados na política e na economia norte-americana: a transição política, que deve gerar mudanças econômicas e geopolíticas importantes; a promessa de campanha de mudança de tributação, com política fiscal mais contracionista para as empresas (talvez o novo presidente não queira pautar isso agora); e de que maneira as questões ambientais podem influenciar outros países, como o Brasil.

O cenário mundial não aponta para arrefecimento dos afrouxamentos monetários. Com segunda onda, inflação sob controle e necessidade de recuperação, não deve faltar liquidez no mundo.

Os cenários de piora da pandemia começam a influenciar a economia dos Estados Unidos, que só não teve impacto significativo porque a vacinação começou – pacotes fiscais foram anunciados. É possível ter pequena queda do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre.

Apesar disso, a vitória democrata no Senado e na Câmara facilita a aprovação de pacotes fiscais mais ousados. Isso deve gerar alongamento da ponta longa da taxa de juros.

Uma pressão nos preços está descartada agora. O aumento de preços nas últimas semanas é reflexo de commodities e preço de serviços, que deve arrefecer.

A China mostra um recrudescimento da pandemia, embora os dados oficiais não sejam totalmente confiáveis. Um ponto preocupante: interrupção do fornecimento de energia em algumas regiões sem problemas climáticos. A recuperação industrial talvez enfrente limitações.

Por outro lado, os números econômicos chineses surpreendem. A demanda por energia industrial está crescendo a dois dígitos. Mercado de trabalho e consumo também mostram recuperação relevante. Apesar da desconfiança sobre os dados oficiais, evidências mostram que o crescimento é consistente.

Conclusão

O momento econômico é bastante complexo no Brasil e no exterior. A pandemia de covid-19 paralisou boa parte do mundo e tomou a atenção de quase todos os países ao longo de todo ano de 2020. O maior problema é que a pandemia não passou com a mudança de ano e, pior, há sinais de mutações agressivas de vírus, ao mesmo tempo que o processo de vacinação caminha muito lentamente.

Setores produtivos atravessam momentos muito distintos entre si, o resultado líquido é de quedas de consumo e do PIB e, para completar tudo isso, ninguém sabe ao certo quando a situação voltará realmente à normalidade pré-covid-19.

A duração da pandemia é muito maior do que se estava imaginando, e dificilmente o mundo terá solucionado este problema já em 2021. Se o processo vacinal se acelerar, pode ser que os bons ventos já sejam sentidos neste ano, ainda que não haja solução definitiva, mas, sendo otimista, isso só será possível a partir do segundo semestre.

O cenário externo, evidentemente, é complexo e tende a se deteriorar de novo neste começo de ano, com a segunda onda muito forte na Europa e focos preocupantes na China. Não é improvável que o mundo vivencie novos momentos de crise econômica mais acentuada, como no começo de 2020.

Vai demorar para que o mundo volte ao “normal”. Enquanto isso, as mudanças vão se tornando mais definitivas sob todos os aspectos: comerciais, sociais, econômicos e políticos. Este será mais um ano de muita emoção e pouco tédio, em especial no Brasil, diante de suas peculiaridades.

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