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Economia

Déficit de policiais é um gargalo da segurança no Brasil

Segundo especialista, que participou da reunião do Fórum Empresarial de Modernização do Estado, solução passa por investimentos em tecnologia e investigação

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Antônio Baptista Gonçalves fez uma análise sobre os problemas da segurança pública no Brasil Antônio Baptista Gonçalves fez uma análise sobre os problemas da segurança pública no Brasil
Antonio Lanzana, presidente do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política Antonio Lanzana, presidente do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política
Andriei Gutierrez, presidente do Conselho de Economia Digital e Inovação Andriei Gutierrez, presidente do Conselho de Economia Digital e Inovação
Márcio Olívio F. Costa, presidente do Conselho de Assuntos Tributários Márcio Olívio F. Costa, presidente do Conselho de Assuntos Tributários
Antônio Baptista Gonçalves fez uma análise sobre os problemas da segurança pública no Brasil
Antonio Lanzana, presidente do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política
Andriei Gutierrez, presidente do Conselho de Economia Digital e Inovação
Márcio Olívio F. Costa, presidente do Conselho de Assuntos Tributários

O problema da segurança pública no Brasil passa, sobretudo, pelo déficit de nossas polícias. Essa é a análise do advogado Antônio Baptista Gonçalves, que presidiu a Comissão de Criminologia e Vitimologia da Ordem dos Advogados do Brasil Secional São Paulo (OAB-SP) por quase três anos e, hoje, lidera a Comissão de Valorização da Advocacia da instituição. Ele esteve na sede da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), na última terça-feira (9), para discutir o tema com membros da Entidade e do Fórum Empresarial de Modernização do Estado, órgão ligado ao Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da Federação. 

“No quadro da Polícia Militar, existem algumas distorções ainda piores, como no Rio de Janeiro, onde há mais sargentos do que soldados, o que onera o orçamento público com o pagamento de salários, e não com investimentos em tecnologia ou equipamentos. É preciso lembrar que o soldado é quem fica responsável pelas rondas e pelo primeiro acolhimento à população — e esse é o principal déficit da PM-RJ”, prosseguiu o especialista, que é pós-doutor pela Universidade de La Matanza, na Argentina, e autor do livro PCC e facções criminosas, lançado em 2020 pela editora Revista dos Tribunais. “Não é só no Rio de Janeiro; isso acontece também em Estados como Roraima e Amapá.”

Alguns dados corroboram essa percepção. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil conta com quase 405 mil policiais militares na ativa atualmente, além de 96 mil civis. Considerando o padrão utilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), de 1 policial para cada 250 habitantes, o País tem um déficit de 179 mil militares e de 55 mil agentes civis. Em cidades como São Paulo, em que algumas regiões convivem com aumento de ocorrências de roubos e furtos, como o centro da metrópole, esse número é de 0,9 para cada 500 pessoas. As desigualdades, porém, fazem com que o Amapá tenha 2,1 policiais para cada 500 — quase o padrão da ONU. Há quase dez anos, um projeto (PL 391/2015) tramita no Congresso para estipular, como base, a presença de ao menos 1 agente para cada 300 habitantes. 

“Como temos menos polícia do que precisávamos, o resultado é que a insegurança aumenta no dia a dia, já que falta patrulha e, além disso, não há como investigar e esclarecer os crimes, função que seria de responsabilidade da Polícia Civil. Isso gera uma série de efeitos prejudiciais para a segurança pública”, analisou Gonçalves.

Uma dessas consequências, na visão do advogado, é que os agentes na ativa acabam se comportando de forma mais reativa do que deveriam, na medida em que enfrentam a criminalidade diretamente — e não atuam para preveni-la. Trata-se de um fator explicativo para o alto número de mortes envolvendo policiais. O alto número de homicídios é outro produto do problema, mesmo com os indicadores oficiais recentes apontando queda. Para se ter uma ideia, o Brasil, com 2,7% dos habitantes do planeta, responde por 20,4% dos assassinatos que ocorridos no mundo todo. É o 11º país mais violento do mundo, com uma média de 22,36 mortes dessa espécie a cada 100 mil pessoas. “Estamos falando de pessoas jovens, de uma faixa etária entre 15 e 29 anos, que conseguem acessar armas ilegalmente com muita facilidade. Mesmo com a redução nos homicídios, o cenário brasileiro ainda é assustador”, ressaltou.

Enquanto isso, alguns locais do País permanecem em situação complexa. Em São Paulo, dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado mostraram, por exemplo, que, entre janeiro e setembro do ano passado, foram registradas, aproximadamente, 16,5 mil ocorrências de roubo apenas no centro da capital — o maior número desde o início da série histórica, em 2001. É uma média de 45 casos diários só na região, considerando que, segundo especialistas, apenas metade das vítimas apresenta notícia-crime à polícia. 

Já no Estado do Rio de Janeiro, os roubos de celulares subiram 15,7% entre janeiro e novembro do ano passado, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), embora, no cômputo geral, as ocorrências de roubo tenham caído 17%. 

Entenda a urgência da modernização do Estado

Prejuízos econômicos

Além dos casos mais violentos, há ainda toda uma economia em prejuízo por causa desse diagnóstico. Recentemente, a FecomercioSP calculou que empresas paulistanas estão gastando cerca de R$ 60 bilhões por ano com custos envolvendo segurança — adicionando valores indiretos, esse montante chega a R$ 200 bilhões anuais no Estado.

Considerando os impactos sobre os negócios, cada consumidor paulista acaba pagando, em média, R$ 1,36 mil ao ano em custos diretos e R$ 4,54 mil em gastos indiretos, em valores que se entremeiam nos preços dos produtos e serviços consumidos. Os relatórios da Entidade ainda mostram que, em São Paulo, as despesas das empresas com segurança chegam a R$ 170 bilhões por ano. “O desafio é que estamos falando de vários tipos de crimes, desde o roubo de carga — que exige terceirização da segurança — até dispositivos instalados para tentar proteger os estabelecimentos, como circuitos de monitoramento, rastreadores, alarmes etc. Tudo isso é repassado ao consumidor de alguma forma”, observou Gonçalves.

Na conversa com os membros do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política, o advogado lembrou que, segundo a consultoria Overhaul, o volume de roubos de cargas no Brasil aumentou 4,8% em 2023, e a previsão é que este ano registre uma nova alta (1%). O prejuízo financeiro gira em torno de R$ 1,2 bilhão, considerando um levantamento da NTC&Logística com base em 2022

“Isso tem um impacto direto ao empresário, que absorve esse custo imediatamente. Então, precisa decidir como fazer para vender o produto ao consumidor por um preço justo e, ao mesmo tempo, não acabar pagando do próprio bolso pelo crime”.

Agenda da Fecomercio-SP

A segurança pública é parte central da agenda institucional da FecomercioSP, que defende uma ampla modernização do Estado. Nos últimos meses, a Entidade identificou, inclusive, que esse tema é o que mais preocupa o empresariado paulista, juntamente com a falta de mão de obra qualificada. Por essa razão, a Federação e seus sindicatos filiados têm se reunido com administrações locais para expor o problema e se colocar à disposição para soluções conjuntas.

Parte dessa ação envolve, aliás, documentos que serão enviados aos pré-candidatos às prefeituras dos municípios paulistas nas próximas semanas, elencando prioridades das próximas gestões — dentre estas, como sondagens recentes da FecomercioSP mostraram, a preocupação evidente com a violência. 

A Entidade também mantém diálogos constantes com as autoridades municiais e estaduais em torno do assunto, levando propostas ao governo estadual. “Esse é um tema crucial para a segurança brasileira, porque nossos indicadores estão muito ruins, principalmente quando comparados a outros países”, finaliza o presidente do conselho, Antonio Lanzana.

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