Editorial

29/08/2019

Peça “O Inoportuno” carrega marcas tradicionais do autor, como ambiguidade, iminência do desastre, absurdo e mentira

Diretor Ary Coslov diz que adaptação do texto de Harold Pinter traz elementos comuns aos debates do cotidiano, transitando por problemas sociais ao desenvolver os conflitos internos dos personagens

Peça “O Inoportuno” carrega marcas tradicionais do autor, como ambiguidade, iminência do desastre, absurdo e mentira

A peça transita por problemas sociais como decadência econômica, falta de moradia, crise de identidade
(Arte: Tutu)

O espetáculo O Inoportuno, em cartaz no Teatro Raul Cortez, coloca em cena uma trama simples: dois irmãos que pouco se falam, mas precisam dividir um apartamento, abrigam um velho desempregado que não tem onde viver. A complexidade dessa trama começa quando fica mais claro que não parece haver qualquer chance de entendimento ou de harmonia entre eles. E a narrativa ainda atravessa os conflitos internos de cada um, jogando uma luz sobre as características que tornam o texto tão famoso mundialmente.

Na trama, Davies (Daniel Dantas), um desabrigado que perdeu os documentos ao se envolver em uma briga de bar, é resgatado por Aston (André Junqueira) e levado a um apartamento empilhado de coisas velhas para ter onde dormir. Davies é convidado a ser o zelador do prédio, mas suas implicâncias com Aston tornam o ambiente um lugar de conflitos constantes. Para piorar a situação do “inoportuno”, Mick (Well Aguiar), irmão de Aston, mantém uma desconfiança quanto ao velho e insiste em entender por que ele se apresenta com um nome diferente – Bernard Jenkins. 

A peça foi criada pelo dramaturgo inglês Harold Pinter (1930-2008) e estreou no começo da década de 1960 com o título The Caretaker. Em 2005, ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Esta é a primeira vez que a peça entra em cartaz no Teatro Raul Cortez, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). 

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A direção da peça é de Ary Coslov, responsável por dezenas de obras na teledramaturgia. Ele explica como as peculiaridades do autor estão gravadas por todo o texto. “O Pinter sempre foi muito influenciado pelo teatro do absurdo. Mas ele criou características próprias já nessa peça, que foi uma das primeiras dele. Ele foi desenvolvendo à sua própria maneira essas marcas nos textos ao longo do tempo, como a ambiguidade, a iminência do desastre e o absurdo”, conta. “A verdade e a mentira são outras características forte aqui e pontos centrais desse espetáculo, já que ninguém sabe muito bem se os personagens estão sendo honestos. Isso fala muito sobre as relações contemporâneas”, lembra.

Outro ponto notável é como os personagens repetem constantemente os planos para mudar a própria situação, característica de humanização que fala com o passado e com o presente, destaca o diretor. Aston planeja diariamente começar a construir uma oficina nos fundos do apartamento; já Davies planeja e procrastina diariamente ir buscar seus “papéis” e documentos na cidade de Sidcup para pôr fim à sua condição de desempregado e desabrigado; enquanto Mick tem ideias vistosas de reformas para o apartamento e outros empreendimentos, coisas que ele nunca chega a colocar em prática. “Esses personagens estão constantemente contando histórias que parecem projeções dos desejos de alguém que quer fazer parte da sociedade”, ressalta Coslov.

Mesmo sendo um texto produzido há algumas décadas, o espetáculo traz elementos comuns aos debates do cotidiano, transitando por problemas sociais como decadência econômica, falta de moradia, crise de identidade, relacionamentos conturbados entre pessoas que não se ouvem e não se entendem, isolamento, etc.

Os ingressos para o espetáculo podem ser adquiridos na bilheteria do teatro ou pelo site Ingresso Rápido.

Serviço:
O Inoportuno, de Harold Pinter
Local: Teatro Raul Cortez – Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista, São Paulo
Até 29 de setembro
Sextas, às 21h30; sábados, às 21h; e domingos, às 19h
Classificação: 12 anos
*Para entrar em contato com o Teatro Raul Cortez, telefone para (11) 3254-1633 ou envie um e-mail para teatro.raulcortez@fecomercio.com.br