Negócios

10/03/2016

Cresce no Brasil número de empresas de impacto social

Modelo corporativo auxilia os mais carentes sem abrir mão da rentabilidade

Cresce no Brasil número de empresas de impacto social

"Sempre nos colocamos o desafio de captar mais para poder atender à alta demanda de beneficiários”, diz o fundador da Gastromotiva, David Hertz.
(Arte/TUTU)

Foi no contato com favelas da capital paulista que o consultor de projetos socioambientais, Fernando Assad, teve a ideia de criar uma solução para melhorar as moradias precárias. Ele queria algo rentável e que não recorresse a doações. “Quando vi o tamanho do déficit de moradias no Brasil, quis algo que pudesse fazer frente ao problema. No entanto, eu não conhecia nenhum modelo de ONG que tivesse uma escala suficiente”, diz o empreendedor.
 
O negócio de impacto social era a ferramenta ideal. Ao lado dos sócios Igiano Lima e Marcelo Coelho, Assad criou o Programa Vivenda. A empresa oferece para moradores de baixa renda a chance de reformar cômodos da casa com preços de até R$ 5 mil, valor que pode ser parcelado.
 
Esse tipo de corporação, que presta um bem para os mais carentes sem abrir mão da rentabilidade, é uma tendência que ganha força no País. “O Brasil tem muitos desafios sociais e ambientais. E o brasileiro é muito criativo, a população não costuma esperar que o Poder Público resolva todos os problemas, e acaba criando soluções”, diz a responsável pela busca e seleção de empreendedores sociais na Ashoka Brasil, Michelle Fidelholc.
 
Setor 2.5
 
Essas companhias estão no chamado “setor 2.5”, intermediário entre o privado (2) e o as organizações da sociedade civil (3). Para fazer parte desse mundo, os especialistas recomendam: coloque a causa em primeiro lugar. “Iniciativas nesse campo podem ser lucrativas, mas o que deve motivar o empreendedor é resolver um problema. Claro que precisa ser rentável porque, diferentemente de uma ONG, não é mantida por doações e precisa de retorno financeiro. Mas não é o lucro que motiva”, ressalta a coordenadora do Centro de Empreendedorismo e Inovação do Insper, Cynthia Serva.
 
Levantamento feito pela Artemisia em parceria com a consultoria Din4mo, especializada no ramo, mostrou que algumas áreas têm despertado maior interesse, como educação básica (22%), serviços para formação profissional (10%), saúde (10%) e intermediação e contratação de mão de obra (7%).
 
Na base, o cliente

Gustavo Fuga criou a escola de idiomas 4YOU2, que oferece para alunos da periferia a oportunidade de aprender uma nova língua, desembolsando valores até sete vezes abaixo do mercado convencional. “A empresa nasceu da empatia de entender o que nossos professores e alunos buscavam e não encontravam no mercado”, explica Fuga, que, como seus clientes, também nasceu na periferia e não tinha condições de pagar um curso de idiomas.
 
Nem só os alunos ganham. Os professores, todos estrangeiros, também se beneficiam. Eles se hospedam na própria comunidade na qual darão as aulas e ganham, além da ajuda de custo, uma experiência cultural única. O êxito da iniciativa consolidou uma rede de parcerias nacionais e internacionais, que atrai milhares de jovens interessados em ensinar.
 
Hoje, com quatro unidades em regiões periféricas da capital paulista, a escola de idiomas oferece três opções de cursos, que variam de R$ 76 a R$ 138 mensais.
 
O desafio do preço
 
Oferecer um produto ou serviço a baixo custo é um desafio. “As empresas montam várias estratégias criativas para o item chegar na ponta acessível para quem mais precisa. Recorrem, por exemplo, a patrocínios, utilizando o chamado ‘modelo Robin Hood’, de cobrar mais de quem pode pagar e oferecer a baixo custo para quem não pode, além de optar por clientes corporativos que subsidiem para outros”, indica Maure Pessanha, da Artemisia.
 
Na Gastromotiva, a fonte de renda provocou a mudança de empresa social para Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Por meio da culinária, o projeto forma pessoas em situação de vulnerabilidade para se tornarem auxiliares de cozinha. A cidadania também é um dos temas que está no cardápio do programa, preparando os participantes para serem agentes multiplicadores em suas comunidades. “O modelo atual é uma evolução com diversos aprendizados desde a nossa fundação. Começamos com um bufê e, com a rentabilidade alcançada, conseguimos formar poucos alunos. Por acreditar no projeto e ter o desejo de ampliar nossa atuação, acabamos nos adaptando ao formato de Oscip. Sempre nos colocamos o desafio de captar mais para poder atender à alta demanda de beneficiários”, conta o fundador da Gastromotiva, David Hertz.
 
Mensurar e validar
 
Além de colocar o projeto em prática, o empreendedor precisa mensurar os impactos das ações, a fim de confirmar se a estratégia adotada tem conseguido, efetivamente, avanços sociais. “Muitas vezes, para avaliar os resultados é necessário ter uma amostra significativa, um número grande de usuários – o que não é possível, especialmente na fase inicial das atividades”, diz Maure Pessanha, da Artemisia.
 
Pesquisa da organização com os que se dedicam à área mostrou que, dos entrevistados, 30% ainda não possuíam meios de precisar o impacto do negócio; outros 30% acreditavam que já havia larga escala; 25% garantiam que ainda era de pequena escala; e para 16%, moderada.
 
Clique aqui e leia a matéria completa, publicada na revista C&S