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Editorial

A mudança no padrão de recuperação do varejo em 2021

Pessoas que mantiveram o emprego e acumularam poupança são os consumidores desta nova onda de recuperação

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A mudança no padrão de recuperação do varejo em 2021

Varejo ampliado e restrito estão em níveis maiores do que o pré-pandemia e devem crescer mais
(Arte: TUTU)

*Por André Sacconato

O varejo voltou a crescer mais do que o esperado em abril. O crescimento na margem foi de 1,8% frente a março e 23,8% em relação a abril do ano passado, comparação injusta por conta do auge das quarentenas impostas pela pandemia em 2020. Depois da queda marginal em março (-1,1%) o setor já mostra força com a distensão das restrições impostas pela segunda onda, segundo revelou a divulgação da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Vemos que o novo ciclo de crescimento vem homogeneizando um crescimento que era muito heterogêneo entre os setores. Final do ano passado, com o advento do auxílio emergencial, os setores que impulsionaram a recuperação foram os ligados ao consumo de mais baixa renda, basicamente supermercados, farmácias e materiais de construção (ditos “formiguinhas”, ou seja, reforma e pequenos ajustes).

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Nessa parcial de abril voltaram à tona setores como tecidos, vestuários e calçados; equipamentos para escritório, informática e comunicação além de livros, jornais, revistas e papelaria, que foram duramente atingidos pela pandemia e ainda não haviam recuperado como os que indicamos acima. Por outro lado hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumos recuou na última parcial em relação a março.

Recuperação da economia

Essa estrutura já mostra uma nova caraterística da recuperação em 2021, saem os incentivos do governo que deram base para recuperação das classes mais baixas e entra a recuperação de artigos de maior valor adicionado por conta da poupança das classes mais altas.

O cenário econômico que dá base, para essa análise, se baseia no efeito concentrador da pandemia. Pessoas com níveis mais baixos de instrução perderam mais empregos, porque eles, geralmente, não são adaptáveis ao home-office e se mantiveram com os auxílios dados pelo governo. Por outro lado, as pessoas mais qualificadas mantiveram o emprego e não gastaram em serviços e viagens, acumulando poupança. Essa poupança ainda foi ajudada pelos incentivos de política monetária que inflaram bolsas e ativos em geral, aumentando o valor real da poupança acumulada. São estes os consumidores desta nova onda de recuperação, principalmente quando o porcentual da população vacinada atingir níveis maiores do que temos hoje.

A surpresa é que esse consumo já está se recuperando antes do esperado, o que já podemos notar nos números de abril e que confirma uma recuperação consistente de 2021. Para termos uma ideia de alguns setores, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) elaborou uma tabela comparando não com 2020, prejudicado pela pandemia, mas com 2019 para se ter uma ideia de como estamos evoluindo por alguns setores.

Antes da análise, vale lembrar os conceitos de varejo restrito e varejo ampliado. O varejo restrito representa os bens de consumo, menos automóveis e materiais de construção, enquanto o ampliado inclui esses dois setores.

Setores do varejo

Nesta tabela, quando comparamos com 2019 é mais fácil perceber como estamos no momento. Setores que foram mais beneficiados com o Bolsa Família já completaram uma boa parte da recuperação ou estão em níveis muito melhores do que anteriormente. Em relação a 2019, hipermercados e supermercados já estão 13.3% acima, assim como artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos também com 13,3% e móveis e eletrodomésticos com 9,0%, e por outro lado, tecidos, vestuários e calçados caindo mais de 41% e Livros, jornais, revistas e papelaria caindo mais de 42%. Todos esses crescimentos são reais e deflacionados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE.

É interessante notar que é exatamente o contrário que vemos na variação entre março e abril de 2021 com tecidos, vestuário e calçados crescendo 13,8% e livros, jornais, revistas e papelaria 3,8%, enquanto o segmento de hipermercados e supermercados caiu 1,7%. Os que ainda estão muito abaixo de 2019 já mostram um maior potencial de crescimento.

Essa nova tendência deve ser reforçada até o final do ano, com uma transição entre setores que serão o esteio da recuperação. Setores mais atingidos e que ainda estão muito deprimidos em relação a seu nível histórico devem se beneficiar da vacinação e voltarão a apresentar fortes crescimentos. Isso não quer dizer que setores como supermercados ou farmácias não possam crescer, mas não devem ser mais os vetores do crescimento, pelo menos até o final de 2021.

De qualquer forma, tanto o varejo ampliado quanto o restrito já estão em níveis maiores do que o pré-pandemia e devem crescer mais até o final do ano. A perspectiva para 2021 é positiva e deve seguir o padrão de recuperação do nosso Produto Interno Bruto (PIB).

*André Sacconato é economista, consultor da FecomercioSP e integrante do CEEP.
Artigo originalmente publicado no Portal Contábeis em 11 de junho de 2021.

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