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23/06/2017

"Não há alternativa, um fato é um fato”, afirma Alexis Wichowski

Professora de Columbia discute o conceito de pós-verdade e diz que, embora possamos ter opiniões, a verdade sobre os fatos deve ser algo que todos reconhecem e respeitam

"Não há alternativa, um fato é um fato”, afirma Alexis Wichowski

“A pós-verdade é uma reação das pessoas querendo ter controle sobre o tipo de informação que estão consumindo, mas é apenas outra maneira de dizer que elas não querem encarar a realidade”, opina Wichowski
(Arte/TUTU)

“Um dos desafios dos nossos tempos é que a tecnologia e nossos hábitos de consumo de informação estão mudando rápido, mas ainda não entendemos o que eles estão fazendo com a gente”, afirma Alexis WichowskiPhD em ciência da informação e professora da Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos. Em entrevista ao UM BRASIL, ela comenta a relação das pessoas com as notícias, e como estas podem ter influência em diversos setores da sociedade, inclusive nos rumos políticos de um país.

“Atualmente, temos uma ideia das tendências, de que as pessoas estão olhando manchetes e pensando que entenderam a notícia inteira e fazendo comentários sobre os temas, mas não está claro se essa postura sempre será o suficiente, ou se um dia elas se incomodarão com isso”, comenta a pesquisadora. “É como comer junk food por muito tempo, você se sentirá mal, sua saúde sofrerá. Sinto que se você só olhar as manchetes, consumir rapidamente as informações e não parar para pensar no que está fazendo, também não se sentirá bem”, conclui.

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Ela relaciona o vínculo entre pessoas e notícias ao conceito de pós-verdade, que foi escolhida como a “palavra do ano” pelo Dicionário de Oxford. Segundo a entrevistada, a pós-verdade estaria relacionada com o hábito de ignorar fatos em favor de opiniões e perspectivas pessoais sobre algo. “A pós-verdade é uma reação das pessoas querendo ter controle sobre o tipo de informação que estão consumindo, mas é apenas outra maneira de dizer que elas não querem encarar a realidade”, opina. “Acho que sempre fizemos isso até certo ponto – ignorar as evidências que nos deixam desconfortáveis – mas, recentemente, se tornou aceitável”.

Sobre a relação entre o conceito de pós-verdade e a internet,Wichowski  declara que existe influência de um sobre o outro por causa da velocidade com que as notícias se espalham por meio da web. “As pessoas sempre se esconderam daquilo que não queriam encarar, mas agora é mais fácil encontrar gente como você e procurar a ‘verdade’ que é conveniente, por que há muita informação disponível”, diz.

Especialmente quando relacionado à polarização política, esse fenômeno seria perigoso. “É conveniente para nossos políticos e muito pobre para nossas democracias”, declara. Para ela, as pessoas estão aceitando mentiras como uma parte normal do discurso político de uma maneira que não era aceitável há cinco anos. “Estranhamente, a internet torna mais difícil do que nunca que se escondam as evidências, mas também torna possível que existam essas narrativas alternativas que as pessoas ‘compram’”, diz.

Sobre as mudanças em grande velocidade no mundo atual, a pesquisadora afirma que um político descoberto mentindo teria que fazer um pedido público de desculpas há poucos anos, o que não acontece atualmente. “Agora as pessoas estão aceitando o fato de que não apenas nossos políticos têm as próprias versões do que acontece, mas se orgulham disso e se declaram quase acima da verdade, como se ela não os afetasse”.

Alexis afirma que o bom jornalismo é mais importante do que nunca no atual momento. “Há algo muito efêmero no atual ciclo de notícias, mas um jornalismo que reúne fatos e evidências nunca perde espaço. Quanto mais informações tivermos, mais fácil será combater as pessoas que estão negando a verdade”.

Sobre a campanha presidencial dos EUA que elegeu Donald Trump, ela declara: “a definição de fato é algo que é verdadeiro e baseado em evidências. Não há alternativa, um fato é um fato”, afirma a professora sobre a ideia de que existem “fatos alternativos” propagada pelo então candidato Trump, durante a campanha que o levou à Casa Branca. “É uma maneira de propagar a ideia de que os fatos não importam, e a administração pode se safar com o que quiser declarar”.

Um dos poucos lados positivos da eleição de Trump, segundo a professora, é que as pessoas percebem que existem consequências reais para a “pós-verdade” e para exposição de notícias falsas. “Outros países não confiam nos Estados Unidos da maneira que confiavam antes, afetando nossas relações diplomáticas e a percepção sobre os EUA como um país estável”, comenta. “Por isso creio que em algum ponto, mesmo que as informações reais contradigam o que a pessoa acredita, elas vão buscar esse tipo de informação, ou pelo menos aceitar que existe uma necessidade dessa realidade nos discursos”.

Sobre o hábito de usar as mídias sociais para informação, Alexis declara: “Estamos nos prejudicando ao não darmos a nós mesmos a oportunidade de pensar por um momento antes de responder, ou de aprender um pouco mais antes de formar uma opinião. Por outro lado, esse é o mundo onde estamos. A não ser que queiramos jogar fora nossos telefones e parar de receber notícias na internet, temos que descobrir como lidar com o fato de que estamos sendo inundados com manchetes o tempo todo”.

Como sugestão para mudar esse cenário, a Wichowski sugere pesquisar um mesmo tópico em um site agregador de notícias, como o Google News. Dessa maneira, é possível acessar todas as notícias publicadas sobre um mesmo tema e fazer o exercício de analisar como a abordagem é feita. “Quanto mais você faz isso, mais você tem um olhar crítico para entender que cada notícia é apenas um ponto de vista sobre um fato”, diz. E, ainda, sobre a cobertura da imprensa: “A campanha presidencial norte-americana não foi sobre problemas, foi sobre escândalos”.

Confira a entrevista completa: