Economia

07/12/2018

Brasil sofre de “anemia” de produtividade e “obesidade” do setor público, diz Otaviano Canuto

Direto-executivo do Banco Mundial afirma que País precisa de reformas fiscal, da Previdência e do ambiente de negócios para vencer a doença

Brasil sofre de “anemia” de produtividade e “obesidade” do setor público, diz Otaviano Canuto

Segundo Otaviano Canuto, gasto público cresce, em termos reais, 6% ao ano no Brasil independente de quem governe
(Arte/Tutu) 

Além de tirar a economia do atoleiro, as diversas reformas prospectadas para o Brasil têm o objetivo de “curar” uma enfermidade. “Hoje, o País está acometido de uma espécie de doença, que é a combinação de uma ‘anemia’ de produtividade com uma ‘obesidade’ do setor público”, explica o diretor-executivo do Banco Mundial, Otaviano Canuto.

Em entrevista ao UM BRASIL, realizada em parceria com o Centro de Liderança Pública (CLP), Canuto salienta que a reforma fiscal é a mais importante, mas a pauta não deve impedir o prosseguimento de outras que também contribuiriam para o desenvolvimento e a estabilidade, como uma agenda microeconômica que simplificasse a burocracia e aperfeiçoasse o ambiente de negócios. Avanços nesse campo podem melhorar a produtividade da economia brasileira, estagnada há anos.

Veja também
Investimento em infraestrutura potencializaria desenvolvimento econômico
“Tempo para fazer Reforma da Previdência de natureza preventiva está acabando”, afirma Marcelo Caetano
Sistema tributário brasileiro precisa de novo modelo e transição gradual, diz Bernard Appy

“Faz três décadas, particularmente as duas últimas, em que a produtividade não cresce ou cresce muito pouco, enquanto o resto do mundo está indo muito bem. O que a gente viu de aumento de produtividade no novo milênio foi muito mais em decorrência da incorporação de pessoas no mercado de trabalho do que de eficiência no uso de recursos. A questão é que, com o envelhecimento da população, essa fonte acabou. Então, mais do que nunca, precisamos de aumentos de produtividade”, reforça.

O diretor-executivo do Banco Mundial comenta que abrir mais a economia brasileira ao comércio exterior facilitaria o acesso a tecnologias de primeira linha.

“O Brasil é mais fechado comercialmente do que qualquer outra economia do mundo comparável, não só em termos de tarifas, mas também de barreiras não tarifárias. Isso significa dizer que, a título de proteger e sustentar estruturas que não são viáveis aqui dentro, o País deixa de ter acesso a tecnologias e componentes melhores disponíveis lá fora. Se fosse mais aberto comercialmente, poderia ser menos completo nas cadeias produtivas industriais, mas o que aqui fosse produzido seria feito com qualidade e preços melhores”, assegura.

portal733__1__charges_otaviano_canuto

Canuto ressalta que a implantação de um teto para os gastos públicos foi um passo para solucionar o problema fiscal brasileiro. O processo, no entanto, não está concluído, uma vez que, sem a Reforma da Previdência, a “camisa de força” das contas públicas não vai conseguir “segurar o paciente”.

“Todo ano, não importa quem governe, o gasto público no Brasil cresce em termos reais ao ritmo de 6% ao ano”, pontua. “Então, o que importa é manter uma trajetória de recuperação do saldo primário gradualmente. Se fizermos isso, conseguimos finalmente diminuir esse espaço que o rentista tem de ganhar dinheiro com a dívida pública, e os juros de longa prazo começam a cair. O pessoal vai se perguntar onde que pode ganhar dinheiro. A resposta é no sistema produtivo”, conclui.

A entrevista faz parte da série “Brasil, ponto de partida?”, produzida com base no estudo Visão Brasil 2030, que traça um diagnóstico detalhado da situação atual do País e das aspirações coletadas ao longo da construção do trabalho, com o objetivo de estabelecer uma estratégia de longo prazo para que o Brasil se torne uma nação desenvolvida.

Confira a seguir na íntegra: