Economia

08/02/2019

Capitalismo financeiro amplia desigualdades sem gerar produção, critica Ladislau Dowbor

Economista e professor afirma que endividamento e juros são as atuais formas de exploração dos mais pobres

Capitalismo financeiro amplia desigualdades sem gerar produção, critica Ladislau Dowbor

Ladislau Dowbor (à esq.) critica sistema financeiro por possibilitar que ricos ampliem patrimônios sem gerar produção
(Foto: Christian Parente)

O mundo enfrenta dois grandes desafios: de um lado, a questão ambiental, envolvendo o aquecimento global e as contaminações dos mares, solos e florestas; de outro, um sistema que favorece uma minoria no acesso a bens e serviços de qualidade, gerando desigualdades. De acordo com o consultor das Nações Unidas e professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ladislau Dowbor, por trás de tudo, está o capitalismo financeiro.

Em entrevista ao UM BRASIL, Dowbor frisa que o País está entre os dez mais desiguais do mundo e que reduzir a desigualdade é prioridade “em termos de decência humana, não de esquerda ou direita”. “Essa desigualdade atinge níveis surrealistas. Temos seis pessoas que têm mais patrimônio do que a metade mais pobre da população brasileira. Eles produziram todo esse patrimônio? Não. Simplesmente eles fazem aplicações financeiras”, destaca.

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De acordo com ele, o endividamento e os juros são as formas de exploração do capitalismo na atualidade. Além disso, o sistema financeiro se sobrepõe aos processos produtivos empresariais, de modo que “nenhuma grande corporação consegue escapar da pressão” por resultados, o que explica eventuais negligências a questões ambientais e a oferta de produtos fraudulentos.

Dowbor também afirma que o sistema financeiro favorece que os mais ricos ampliem o volume de seus patrimônios. “Se eu tenho US$ 1 bilhão de dólares e aplico isso moderadamente a 5% ao ano, estou ganhando por dia US$ 137 mil. Quem é bilionário não precisa mais produzir”, salienta.

Segundo o economista, na época do capitalismo industrial, a exploração dos mais pobres acontecia por meio do salário. Hoje, o sistema financeiro permite que os mais ricos ampliem as suas riquezas sem gerar produção.

“Quando um capitalista do século passado produz sapato e explora os trabalhadores, protestamos, mas ao menos está produzindo, gerando emprego e pagando imposto. Os de hoje, bancos e grandes intermediários financeiros, já colocam o dinheiro em paraísos fiscais”, pontua.

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Como agravante da desigualdade, Dowbor ressalta que, embora a economia mundial esteja integrada, o mesmo não acontece na política. Desse modo, não há uma coordenação de ações para combater a pobreza e tornar o mundo menos desigual. Isso fica evidente, segundo ele, nos avanços tecnológicos, uma vez que o aumento de produtividade proporcionado por dispositivos e ferramentas inovadoras não se traduz em redução da desigualdade.

“O principal fator de produção, hoje, é o conhecimento, que é diferente do fator de produção material. Se eu te passo o meu relógio, eu deixo de ter o relógio, é o que se chama de ‘bens rivais’ em economia. Se eu te passo uma ideia, eu continuo com ela. Toda a parte da tecnologia e dos avanços científicos pode ser generalizado para o planeta todo sem gerar custos adicionais”, afirma. “O potencial que temos da modernidade é fantástico, mas essa modernidade tem que deixar de ser trancada por patentes, copyrights e royalties”, completa.

Comediada pelo jornalista Leandro Beguoci e pelo coordenador pedagógico do curso UM BRASIL Sustentável: visões, desafios e direções, Zysman Neiman, a entrevista foi tema da nona aula do programa de ensino desenvolvido pelo canal em parceria com a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS) e o Programa de Mestrado em Análise Ambiental Integrada, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Confira a entrevista na íntegra a seguir: