Editorial

23/02/2016

Crise do petróleo abre novas oportunidades ao setor energético

Inovações tecnológicas abrirão caminho para a produção das novas fontes de energia

Crise do petróleo abre novas oportunidades ao setor energético

Evolução do consumo de petróleo deixou de crescer nos Estados Unidos e nos demais países industrializados
(PixAbay)

José Goldemberg

A indústria de petróleo e gás representa hoje 70% da energia consumida no mundo. Essas fontes de energia dominaram o século XX, substituindo o carvão mineral e a biomassa.

Mas o século XXI apresenta novos desafios para a indústria do petróleo, dentre os quais, estão desde 1973, a Organização dos Paises Exportadores de Petróleo (OPEP) que vinha mantendo afora pequenas variações elevado o preço do petróleo, que atingiu 140 dólares por barril.

Esse preço levou as grandes petrolíferas a explorar petróleo em áreas antes consideradas problemáticas, como o Ártico ou em grande profundidade nos oceanos, como o pré-sal nas profundezas da costa marítima brasileira. Isto ocorreu para compensar o esgotamento progressivo dos poços de petróleo mais antigos como os do Mar do Norte na Europa.

Outro desafio é a evolução do consumo de petróleo que deixou de crescer nos Estados Unidos e nos demais países industrializados nos últimos anos. A queda foi de cerca de 10% nos últimos dez anos. O consumo continuou, contudo, a crescer nos países em desenvolvimento principalmente na China não tão
rapidamente como no passado.

• A emergência de novos produtores de petróleo e gás, principalmente nos Estados Unidos, que importava quase 10 milhões de barris de petróleo por dia e que, graças à produção dos depósitos de shale oil/gas, se tornou praticamente autossuficiente.

Petróleo e gás são um ingrediente essencial para a geração de riqueza e desenvolvimento, sobretudo na área de transportes, mas o que ocorreu nos países industrializados é que grande parte da população já atingiu um nível de vida elevado e a necessidade de aumentar o consumo diminuiu. Hoje, nos Estados
Unidos, existem cerca de 240 milhões de automóveis para uma população de 320 milhões de pessoas, ou seja, quase um automóvel por habitante. Além disso os automóveis estão se tornando mais eficientes e consomem menos gasolina. Automóveis elétricos contribuem também para reduzir a demanda por
gasolina.

A combinação de um aumento de produção de petróleo com a redução de consumo nos países industrializados levou a uma situação de abundância de oferta que a Opep não conseguiu controlar e que levou à queda dramática no preço do barril que se situa hoje abaixo de 30 dólares.

Quem poderia se beneficiar desta situação seriam os países importadores de petróleo como a China e a índia, mas o crescimento econômico destes países não é mais suficiente para absorver o excedente de petróleo existente no mundo. Os demais países em desenvolvimento, sobretudo na África, poderíam
aumentar seu consumo mas esta possibilidade é remota porque há muitos outros obstáculos políticos e institucionais que impedem que isto aconteça.

Mais ainda: um aumento significativo do consumo de petróleo e gás levará a um aumento das emissões de gases de "efeito estufa" resultantes da combustão dos derivados do petróleo (gasolina, óleo diesel e óleo combustível) e metano que escapa das tubulações dos campos de produção de petróleo e gás. Com o Acordo de Paris adotado pelos países signatários da 21° Conferência do Clima (COP 21), este aumento de emissões vai sofrer limitações a partir de 2020.

E esta combinação de fatores que indica que não haverá grande aumento do consumo de hidrocarbonetos no futuro, mesmo com os preços baixos.

Poder-se-ia pensar que petróleo barato encorajaria seu uso para produção de eletricidade. E pouco provável que isto ocorra, já que o carvão é o principal combustível usado para a geração de eletricidade (mais de 40%, seguido por gás cerca de 20%, hidroeletricidade e nuclear). Converter as usinas termoelétricas
para uso de carvão é possível, mas exigirá pesados investimentos.

Isso significa que inovações tecnológicas abrirão caminho para a produção das novas fontes de energia. Os países em desenvolvimento terão aqui uma oportunidade única porque se situam em geral em áreas temperadas do globo onde existem terra, água e radiação solar em abundância.

O que é desejável é que o crescimento do consumo de energia nos países em desenvolvimento ocorra a partir de fontes renováveis menos poluentes que evitarão no futuro os problemas de poluição urbana e regional que a China, México e outros países enfrentam hoje.

As principais fontes renováveis de energias disponíveis para a produção de eletricidade são:

•Energia eólica e
•Energia fotovoltaica cujo uso em grande escala só poderá ser feito com a utilização de reservatórios hidroelétricos, uma vez que são intermitentes ou bancos de baterias. Biomassa é uma forma de energia solar como energia eólica e fotovoltaica com a vantagem que ela é não apenas uma fonte de energia gue se origina do sol via fotossíntese, mas também armazena a energia.

Mais pesguisas são necessárias para reduzir o custo e aumentar a capacidade de armazenamento dessas fontes. Quando isto ocorrer, automóveis elétricos se transformarão em uma alternativa viável para os atuais veículos que usam derivados de petróleo (gasolina e óleo diesel) e gás.

Outra área de desenvolvimento importante é o uso de biomassa para a produção de biocombustíveis, na qual os Estudos Unidos e o Brasil são os líderes.

A conseguência será o abandono gradativo da exploração de óleo e gás nas áreas mais problemáticas, o que já está ocorrendo com o adiamento de cerca de 400 bilhões de dólares de investimento pelas grandes empresas petrolíferas.

É muito provável também gue estas tendências afetem a exploração do pré-sal no Brasil apesar dos excelentes avanços gue foram conseguidos. O mesmo se aplica para o "fraturamento hidráulico" para extrair petróleo e gás das formações geológicas (folhelho ou xisto) gue se desenvolveu muito nos
Estados Unidos, nas regiões onde a fiscalização ambiental é menos rigorosa.

A atual "crise do petróleo" resultante da gueda dos preços é na realidade uma crise dos grandes exportadores de petróleo como a Arábia Saudita, Rússia e Venezuela. Ela abre, contudo, novas oportunidades para orientar setores energéticos numa direção mais sadia da gue ocorreu no século XX.

*José Goldemberg é presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP.
Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 23/02/2016.