Editorial

15/02/2016

Empresas levam universidades a abrir-se ao exterior, diz Goldemberg

A reindustrialização do País depende das universidades e de políticas públicas que estimulem a competitividade

Empresas levam universidades a abrir-se ao exterior, diz Goldemberg

As melhores universidades do Brasil têm condições de responder aos desafios de políticas públicas 
(PixAbay)

José Goldemberg

Escolas existem desde a mais remota Antiguidade, dada a necessidade óbvia de transferir os conhecimentos às novas gerações. Isso vale desde os xamãs das tribos indígenas, que conhecem os "segredos" das plantas medicinais, até as grandes universidades de hoje. 

Ao que parece, contudo, a primeira escola formal que existiu foi a de Eduba criada pelos sumérios no Oriente Médio, por volta do ano 3500 antes de Cristo. Nela se ensinavam a escrita cuneiforme, que deu origem à nossa escrita, e a aritmética que era necessária nas transações comerciais da época.

Algo mais próximo do que se entende hoje por universidade é a Academia fundada por Platão em 387 antes de Cristo em Atenas, onde os estudantes aprendiam matemática, ginástica e filosofia, sobretudo governança e ciência política. Isso não é de surpreender numa cidade – Atenas – onde se originou a democracia como sistema de governo.

No século 5.º da Era Cristã, a Universidade de Nulanda, na Índia, tinha mais de 10 mil alunos e nela se ensinava teologia, filosofia, astronomia e alquimia e anatomia. Com a ascensão do Islã, surgiram diversas grandes universidades na Tunísia, no Marrocos, no Egito e no Iraque.

No mundo ocidental, a primeira escola com características de universidade é a de Bolonha, na Itália, criada em 1086. As universidades inglesas e americanas são mais recentes, mas a partir do século 19 se tornaram as "usinas" onde se descobriram as novas tecnologias que levaram a uma revolução no modo de vida de grande parte da população mundial.

Um dos melhores exemplos de como isso aconteceu é dado por James Watt no fim do século 18. Watt era um hábil construtor de instrumentos e numa pequena oficina da Universidade de Glasgow, na Escócia, aperfeiçoou as máquinas existentes na época que usavam a pressão do vapor d’água fervente para produzir trabalho mecânico, isto é, fazer girar máquinas usadas na tecelagem.

Daí para a construção de locomotivas foi um pequeno passo, abrindo caminho para o uso de ferrovias, que logo cobriram toda a Europa e os Estados Unidos.

Watt era um técnico que se tornou grande empreendedor, como Edison e Marconi no caso da eletricidade e das telecomunicações e Bill Gates na área de computadores. 

Em muitos outros casos foram capitalistas de grande visão que fizeram a transição entre descobertas e invenções e sua introdução no mercado, como Rockefeller na área de petróleo. Um ambiente empresarial de livre competição foi essencial neste processo.

Esse processo continua em operação nos dias de hoje com grandes universidades, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), que produzem a cada ano milhares de profissionais de alta qualificação que transformam em indústrias e negócios o que aprenderam na escola.

O que se pode perguntar é: por que o mesmo não está acontecendo, também, em grande escala no Brasil?

Algumas das nossas universidades públicas como a USP, a Unicamp e algumas federais formam por ano milhares de engenheiros, médicos e advogados altamente qualificados, que mantêm os setores público e privado em funcionamento. Por exemplo, desde sua fundação em 1934, a Universidade de São Paulo já graduou 300 mil profissionais.

Apesar disso, a atividade industrial está caindo em nosso país e a economia cada vez mais vai dependendo da exportação de minérios e insumos primários.

É evidente que as universidades não podem ser responsabilizadas por estas tendências desastrosas da economia nacional, que decorrem de políticas macroeconômicas equivocadas e da baixa produtividade dos trabalhadores em comparação com outros países, decorrente da falta de investimentos na educação básica. Isso não impede, contudo, que se atribua a elas parte das responsabilidades, por viverem isoladas do sistema produtivo, interessadas apenas em pesquisas acadêmicas distantes da realidade nacional.

A resposta a estas críticas é que uma séria reação a essas tendências está se esboçando e muitas empresas estão abandonando a falsa “zona de conforto” resultante de subsídios governamentais e barreiras alfandegárias para inovarem e competirem no mercado internacional. Ao abandonarem esta "zona de conforto", elas estão se aproximando das universidades, levando-as a se abrir para o mundo externo.

Governos recentes não atentaram para o fato de que o mercado interno brasileiro representa apenas cerca de 3% do comércio mundial. Ou seja, o mercado mundial é cerca de 30 vezes maior que o nosso mercado interno.

Conquistar parte desse mercado global com produtos inovadores, baseados nos recursos naturais em que o Brasil é pródigo, como os de origem vegetal, é a receita para o sucesso na competitividade internacional. Exemplos são dados pela empresa Natura, que produz cosméticos em que cerca de 30% do faturamento provém de vendas no exterior, ou pela Suzano, que exporta papel e celulose.

Em São Paulo, o estímulo à inovação está sendo feito crescentemente por agências governamentais, como a Fapesp, que nos últimos anos apoiou financeiramente mais de mil "startups", pequenas empresas de tecnologia inovadoras.

A reindustrialização do País, condição essencial para sair do ciclo semicolonial de exportar produtos primários, não depende, pois, somente das universidades, mas de políticas públicas que estimulem a competitividade, como um câmbio adequado e investimentos em infraestrutura, que o governo federal pode promover. E as melhores universidades do Brasil têm condições de responder aos desafios de políticas públicas desenhadas para fazê-lo.

*José Goldemberg é presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP.
Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 15/02/2016.