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23/01/2019

Ensino de conceitos de empreendedorismo pode ter impactos positivos nas escolas

Atividade que pode ser incluída em disciplinas do currículo educacional pretende promover a autonomia das crianças

Ensino de conceitos de empreendedorismo pode ter impactos positivos nas escolas

Para especialistas, o empreendedorismo depende da comunidade como um todo
(Arte: TUTU)

A prática de empreendedorismo entre alunos da educação básica ainda é rara nas escolas do Brasil. Para os especialistas, esse conceito precisa ser ensinado desde cedo. De acordo com o professor da Fundação Dom Cabral em Minas Gerais e criador de um programa de ensino de empreendedorismo na educação básica e universitária chamado “Pedagogia Empreendedora”, Fernando Dolabela, o empreendedorismo é uma mudança de “modelo mental”.

“É preciso que as crianças percebam isso e que comecem a entender que é muito mais natural buscar a sua autonomia do que se submeter a um vínculo de dependência que é a relação de emprego”, comenta Dolabela.

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Algumas escolas particulares no País estão fazendo esse movimento, e já existe uma discussão legal para levar o curso sobre empreendedorismo nas escolas públicas. Em São Paulo, a Câmara dos Vereadores aprovou, em junho de 2018, um projeto de lei que inclui a abordagem de noções de empreendedorismo na rede municipal de ensino da cidade, que integra do infantil ao fim do fundamental (etapa que vai até os 14 anos). A ideia do projeto, sancionado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) no mesmo mês e que virou lei, é introduzir na sala de aula, por exemplo, conceitos de educação financeira, cultura organizacional e gestão de negócios e de mercado.

No entanto, aspectos do empreendedorismo também podem ser abordados em outras disciplinas do currículo – o que se chama de “ensino transversal”. Para Dolabela, ensinar empreendedorismo de maneira transversal, ou seja, em aulas de Matemática ou História, pode ser mais difícil quando a cultura do empreendedorismo não é o forte de um país. “A transversalidade é mais trabalhosa, ela implica que um professor que não está interessado em empreendedorismo aborde o tema.”

Os temas de empreendedorismo são abordados transversalmente na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento do MEC que deve guiar os currículos dos Estados e municípios a partir de 2019. O texto, já aprovado para o ensino fundamental, descreve, por exemplo, que no nono ano o aluno deve ser capaz de resolver e elaborar problemas que envolvam porcentagens “no contexto da educação financeira”. Os conceitos básicos de economia e finanças, como taxas de juros, inflação e aplicações financeiras, aparecem no conteúdo que deve ser ensinado em Matemática.

A demanda por ensino transversal de empreendedorismo por meio de disciplinas já era assunto em um projeto de lei do Senado (n.° 772), de 2015, que propunha alterar o principal marco legal de educação do País – a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 2006 –, para incluir o tema nos anos finais do ensino fundamental e também no ensino médio. O projeto segue tramitando.

Entretanto, ensinar empreendedorismo não significa transformar todos os alunos de uma determinada escola em empreendedores quando adultos. Isso porque, afirma Dolabela, o empreendedorismo depende da comunidade como um todo. “Trata-se de um fenômeno socioeconômico. É preciso que a sociedade crie bens que sejam receptivos à ação empreendedora adequada”, diz. Por isso, de acordo com ele, o empreendedorismo não é um fenômeno de sala de aula, mas da comunidade.

Mesmo que os alunos não se tornem empreendedores no futuro, o ensino de aspectos ligados à atividade de empreender pode ter impactos positivos nas disciplinas obrigatórias cognitivas (como Português ou Ciências) e até mesmo no comportamento dos alunos.

Um dos obstáculos é oferecer cursos como empreendedorismo nas escolas justamente em um momento em que alunos e seus pais estão preocupados quase exclusivamente com o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e com a aprovação no vestibular.

Clique aqui e confira a matéria completa a partir da página 36 da revista Problemas Brasileiros.