Editorial

08/01/2016

Não há como vislumbrar um 2016 com melhorias no emprego, diz Pastore

De acordo com o José Pastore, presidente do Conselho das Relações do Trabalho da FecomercioSP, o que era determinante para reverter o quadro atual estava em 2015

Não há como vislumbrar um 2016 com melhorias no emprego, diz Pastore

O setor de construção foi um dos mais atingidos com alta de demissões, em reflexo à crise econômica brasileira
(Pixabay)

José Pastore

Gostaria de encontrar elementos de realidade para poder oferecer ao leitor um pouco de otimismo para o quadro do emprego em 2016. Infelizmente, os dados disponíveis me levam à previsão sombria. Isso porque os determinantes do emprego em 2016 não estiveram presentes em 2015. Ao contrário, os investimentos caíram. Os contratos das empresas de infraestrutura minguaram ou se encerraram em definitivo em consequência de condenações por corrupção. A indústria de transformação, agonizante, encolheu ainda mais. Projetos de expansão foram adiados. Isso tudo terá graves reflexos na geração de empregos em 2016.

Em 2015, o Brasil perdeu cerca de 1,5 milhão de empregos formais. Foi um resultado avassalador, lembrando que em 2010, o Brasil gerou 2,5 milhões postos de trabalho. Saímos, assim, da era do apagão de mão de obra para entrar em cheio na era do apagão de empregos. No passado recente, parcela expressiva dos jovens decidira trocar o emprego por permanência mais alongada na escola. Entre os idosos, muitos desistiram de trabalhar para viver de aposentadoria e de programas sociais generosos. Para os dois grupos, como de resto para todos os brasileiros, inflação em queda e salários em ascensão fizeram aumentar o poder de compra.

O quadro mudou drasticamente em 2015, e de forma acelerada. Os que decidiram não trabalhar foram forçados a procurar trabalho. O desemprego subiu abruptamente para a casa dos 7% e até mais. A inflação que ficou bem comportada até 2014, em torno de 6%, disparou repentinamente, chegando a mais de 10% no fim de 2015. Resultado: grupos imensos perderam emprego e poder de compra, passando a sofre as agruras da estagflação, o que fez evaporar os seus sonhos de mobilidade social.

Os agentes econômicos foram importantes para superar os problemas apontados. As empresas usaram no limite as possibilidades de manter os empregos – concederam férias e licenças ou os colocaram em layoff. Nada disso adiantou. No início do segundo semestre de 2015, a contragosto, tiveram de promover demissões em grande escala. O programa de Proteção ao Emprego, do governo federal, que atendeu 45 mil trabalhadores, revelou-se anêmico em vista dos 9 milhões de brasileiros que amargaram o desemprego em 2015. A própria contratação de trabalho temporário para festas de fim de ano se revelou insignificante.

Quando se juntam todos esses dados, só posso antever um início de ano (2016) com muitos problemas para a família brasileira. A volta das férias pode trazer tristes surpresas para os empregados que serão despedidos abruptamente como reflexo do mau desempenho das empresas em que trabalham. Isso tem levado a grande maioria dos analistas a prever a elevação da taxa de desemprego em 2016 para o patamar de 10%, atingindo mais de 10 milhões de brasileiros.

O que poderia reverter esse quadro no primeiro semestre de 2016? Nada, porque os determinantes foram dados em 2015. Dificilmente o setor da construção – um dos mais afetados por demissões em massa – dará guinada naquele semestre. Igualmente improvável é a reversão da crise que assola o setor automotivo. Se nada disso ocorre com esses dois setores, pouco mudará o quadro crítico de empresas que fazem parte de cadeias produtivas enormes e que respondem pelos insumos essenciais daqueles segmentos. Em muitos casos, pequenas e médias empresas produtoras dos referidos insumos já desativaram grande parte da produção, como é o caso de materiais de construção, autopeças, chegando até a mineração e a siderurgia.

Na crise atual, poucos ficaram fora dela. Até mesmo o setor de alimentos apresenta quedas de venda e de emprego, o mesmo ocorrendo com os serviços pessoais que sempre resistiram às crises.  Com isso em mente, pouco se pode esperar do desempenho desses setores no primeiro semestre de 2016, quando a inflação deve se manter em alta e o emprego em baixa.

O que dizer do segundo semestre de 2016? Pode ser que com uma possível reativação do crédito aos consumidores venha a estimular as vendas de produtos básicos, eletrodomésticos de menor valor, materiais de construção para reformas e alguns serviços pessoais, Mas, dificilmente, haverá recursos e tempo para reversão dos setores da construção e automotivo com reflexos na geração de empregos. Tudo indica que a crise nesses setores se se arrastará ao longo de todo o próximo ano. Isso me leva a confirmar o que disse no início deste artigo: não tenho elementos objetivos para antever um 2016 com melhores condições de emprego e de tenda para a família brasileira. Oxalá o ano que venha a ser marcado pelo início das reformas estruturais que podem garantir um quadro menor a partir de 2017.

*José Pastore é presidente do Conselho das Relações do Trabalho da FecomercioSP. Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 06/01/2016, página 11