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22/06/2018

Sem regulamentação, bitcoin ainda não é alternativa viável para o comércio

Com forte apelo especulativo, moeda virtual ainda é pouco utilizada como meio de pagamento por bens e serviços

Sem regulamentação, bitcoin ainda não é alternativa viável para o comércio

Para a FecomercioSP, investir na aceitação de criptomoedas como meio de pagamento não deve ser prioridade do comércio eletrônico
(Arte/Tutu)

Por Eduardo Vasconcelos

Mais famosa das moedas virtuais, o bitcoin tem recebido cada vez mais atenção dos investidores e dos órgãos reguladores mundo afora. Contudo, mesmo com o interesse em alta, ainda há desconfiança em relação ao ativo – e não é para menos. De acordo com os sites Bitcoin.com e TokenData, 46% das 902 moedas virtuais lançadas em 2017 fracassaram – 142 não conseguiram financiamento e 276 desapareceram ou se mostraram fraudulentas.

Acontece que, diferentemente das moedas tradicionais como o real e o dólar, as criptomoedas são emitidas sem acompanhamento ou regulação de nenhuma autoridade monetária. Nesse caso, esses ativos são gerados por um sistema criptografado, sob senhas de computador que, em tese, garantem o controle da emissão e a segurança do proprietário. As transferências são efetuadas por “mineradores” que validam as operações e contabilizam as entradas e saídas em livros contábeis virtuais chamados de “blockchains”.

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O valor da moeda é determinado com base nas operações de compra e venda, como uma taxa de câmbio flutuante, e de sua aceitação. De acordo com o Conselho de Economia, Sociologia e Política da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), essas operações são motivadas pela confiança e pela expectativa que os investidores têm sobre a criptomoeda, de modo que há um forte aspecto especulativo em sua aquisição.

“Comecei a comprar bitcoin porque sempre tive interesse em investir. Quando descobri a moeda, achei interessante porque o preço subia bastante”, comenta o trader  Bruno Sampaio. “Quando comecei, fui um grande especulador. Agora, além de comprar e vender conforme a flutuação, uso bitcoins como reserva de valor em vez de deixar meu dinheiro apenas guardado em bancos”, completa.

Em geral, o investidor que adquire bitcoins acredita que o valor do ativo subirá. Contudo, a compra de uma criptomoeda também passa pelas crenças de que existe segurança no sistema e controle de emissões para garantir que não haja uma superprodução de modo que desvalorize a moeda e de que haverá aceitação do ativo quando precisar transferir para adquirir bens, serviços ou trocar por moedas tradicionais, explica o Conselho de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP.

Compras com bitcoins
Embora seja a mais conhecida das moedas virtuais, a aceitação do bitcoin como meio de pagamento no comércio eletrônico brasileiro ainda é bastante baixa. “Neste momento, ainda não vemos grandes marcas do varejo virtual se movimentando para aceitação de bitcoin ou qualquer outra criptomoeda”, afirma o presidente do Conselho de Comércio Eletrônico da FecomercioSP, Pedro Guasti. “Existem muitas notícias de uso de bitcoin na dark web, ou seja, um mundo virtual paralelo onde é possível ter acesso a produtos lícitos e ilícitos em virtude do formato de não rastreamento e anonimato que as criptomoedas permitem”, completa.

Na vanguarda de vendas com bitcoin, aparece a marca de roupas Reserva. O site da grife carioca aceita pagamentos com a moeda virtual desde o dia 4 de janeiro deste ano. Desde então, os pagamentos em bitcoin representam de 1% a 3% das vendas mensais da loja, segundo o gerente de Omnichannel e Experiência de Compra do Usuário da Reserva, Rodrigo Berutti. “Quando pensamos em bitcoin, queríamos que fôssemos os precursores no processo de democratização dos meios de pagamento. Com a moeda virtual, conseguimos disponibilizar nossos produtos para um grupo de pessoas que a possuíam, mas até então não conseguiam utilizá-la.”

Os pagamentos com a criptomoeda são feitos por meio de transferências entre carteiras. Como os produtos do site são ofertados em reais, ao selecionar bitcoin como meio de pagamento, o sistema faz a cotação e apresenta o valor convertido. Berutti explica que o cliente tem 30 minutos para efetuar a transferência, do contrário, o pedido é automaticamente cancelado.

Após essa experiência inicial, a marca tem estudado a possibilidade de aceitar outras moedas virtuais. “Estamos avaliando, mas queremos primeiro colocar [o pagamento com] bitcoins nas lojas físicas e fazer com que o mercado cresça cada vez mais para que essa criptomoeda se popularize como forma de pagamento”, afirma o gerente da Reserva.

Para Pedro Guasti, os empreendedores devem estar atentos para a possibilidade futura de uso de criptomoedas como meio de pagamento, mas ressalta que é necessário que uma base grande de clientes as utilize para que seja uma alternativa viável para o varejo.

“Em uma lista de projetos a serem desenvolvidos em um negócio online, investir tempo e dinheiro agora na aceitação de criptomoedas não é prioritário. O mercado ainda é relativamente pequeno e poucos usuários aderiram a essa alternativa”, reitera.

O Conselho de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP salienta que transações com criptomoedas não estão regulamentadas no Brasil, embora o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tenham dado indícios de que devem começar a analisar essas operações. Além disso, a Federação não aconselha a aquisição de bitcoins como investimento, em função da possibilidade de bolha e de um futuro impedimento de uso por parte do Banco Central.