Economia

11/08/2017

“Temos de tirar os candidatos da zona de conforto que o marketing criou para eles”, diz Sérgio Abranches

Cientista político fala ao UM BRASIL sobre “a era do imprevisto”, tema de seu livro que discute período de mudanças gerado pela globalização e a digitalização

“Temos de tirar os candidatos da zona de conforto que o marketing criou para eles”, diz Sérgio Abranches

“Ser progressista hoje é pensar nas categorias que não estão representadas, que estão desprotegidas, sobretudo as mais pobres”, defende Abrances
(Foto/TUTU)

“É uma transição profunda, radical e absoluta, o fim do mundo tal como nós conhecemos”, define o sociólogo, cientista político e ambientalista Sérgio Abranches sobre o atual momento que o mundo atravessa. Em entrevista ao UM BRASIL, ele comenta desdobramentos da globalização nos âmbitos político e social.

Para o entrevistado, vivemos uma mudança tecnológica vertiginosa que está acompanhando e viabilizando os processos de globalizações econômica, social, política e cultural. “As transformações na sociedade vão numa direção em que as ferramentas não funcionam mais, e esse enfrentamento da natureza [por causa das mudanças climáticas], faz com que estejamos vivendo uma travessia entre o mundo que conhecemos e o que vamos conhecer”, elabora.

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Uma das crises que vivemos, segundo ele, seria a da representatividade política. “A ideia da representação analógica está se esgotando, mas não necessariamente há uma ideia digital de representação ainda”, afirma. Isso aconteceria porque, no passado, as pessoas não recebiam informação em tempo real sobre o que se passava, e durante as campanhas políticas, eram informadas das questões sociais. Hoje, os cidadãos trocam opiniões em rede na sociedade digital, recebendo informações e trocando ideias sobre elas todos os dias. “A sociedade foi se atualizando, e a política continua analógica”, conclui o entrevistado.

Segundo ele, essa mudança também põe em xeque os partidos políticos. “Duvido que os partidos sobrevivam ao processo de digitalização geral da sociedade. O partido era uma forma de organizar ideias analógicas em blocos e plataformas que permitiam que as pessoas identificassem cada uma”, explica. Para Abranches, os partidos em si estão parando de fazer sentido. “Vão se criando categorias sociais novas que não encontram representação, nem no sistema partidário, nem no sistema sindical, em lugar nenhum.”

Segundo ele, as divisões do âmbito político também entram nesse processo. No caso da direita, há um conjunto de ideias que se adaptou às transformações que vêm acontecendo, com o surgimento de doutrinas como o neoliberalismo.

Já a esquerda, diz o sociólogo e cientista político, não conseguiu atualizar seus pensamentos. “A esquerda de matriz marxista, por exemplo, continua a achar que a classe fundamental popular é o operariado industrial, mas este está desaparecendo e a indústria manufatureira cada vez representa menos na economia, pois estamos entrando numa economia do conhecimento”. Por isso, ele afirma, não faz sentido pensar política dos setores populares com base em um grupo que é muito específico de determinada era do capitalismo que está acabando. “Ser progressista hoje é pensar nas categorias que não estão representadas, que estão desprotegidas, sobretudo as mais pobres”, defende.

“A esquerda que eu postulo em meu livro A era do imprevisto é uma esquerda que se volta para essas novas categorias e busca formas de defender os setores desprotegidos da sociedade, levando em consideração as limitações naturais desse processo de globalização financeirizada”, explica.

 “Uma das questões fundamentais do conceito de igualdade social é criar oportunidades para que as pessoas possam realizar igualmente suas capacidades”, defende.  “Nenhuma sociedade é homogênea, o que ela pode ter é igualdade de condições para a autorrealização, que se dá de forma diferenciada e não se confronta com a diversidade.”

Para Abranches, a mudança que estamos vivendo aumenta o poder em dois polos: primeiro, o poder global, pois alguns problemas só podem ser discutidos mundialmente, como as mudanças climáticas. Em segundo lugar, o poder local, já que as cidades estão fazendo esforços para se tornarem cada vez mais inteligentes, autossuficientes e democráticas. “Esse é o caminho da democracia do futuro, que deixa muito pouco para ser resolvido em plano nacional”, acredita.

Sobre o cenário brasileiro, ele afirma que o País experimenta essa transição de forma muito singular. A digitalização, por exemplo, é desigual, mesmo se nos compararmos a países semelhantes ao nosso. “O Brasil entra nessa transição carregando um passivo do qual podemos nos livrar com facilidade, é o que eu chamo de ‘vantagens do atraso’, ou seja, nós não precisamos repetir todos os passos da modernização que os outros passaram, já sabemos o que tem pela frente.”

Sobre a democracia, ele destaca que, no Brasil, ela carrega consigo um entulho autoritário e clientelista. “Vamos entrar na crise da democracia representativa com uma democracia de pior qualidade do que a que deveríamos ter neste momento no Brasil: que entrou em retrocesso, tornou-se mais corrupta do que era, mais clientelista do que era, e precisa ser revista de forma radical.”

O “presidencialismo de coalizão” que temos no País, termo cunhado por Abranches no passado, está em crise, como todos os modelos políticos do mundo, segundo ele. “Nós não mudamos prática simplesmente mudando regra. Mudamos prática mudando comportamento, e para mudar o comportamento, é preciso que os políticos façam coisas que não estão fazendo”, defende o entrevistado.

De acordo com ele, é preciso que os políticos se exponham à sociedade, por exemplo. “Quem ganha campanha é marqueteiro, o candidato não conversa livremente sem script, não se expõe. Ele é um boneco perfeito que não é o que o povo vai ver no exercício do mandato. Temos de tirar o candidato da zona de conforto que o marketing criou para ele.”

Confira a entrevista completa: