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Editorial

09/03/2014

A copa da competividade

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A copa da competividade

Há uma crítica velada à qualidade e à capacidade de gestão de pequenos novos empreendimentos no Brasil. Sob o discurso de atribuir a responsabilidade a fatores externos, típico da cultura brasileira, é comum que o baixo desempenho desses negócios seja justificado pela burocracia excessiva, pela complexidade dos impostos e pela falta de vocação dos bancos nacionais para emprestar ou financiar empresas que não oferecem garantias. Tudo isso é verdade, mas uma das causas reais do nosso baixo desempenho está na baixa qualidade da educação.

Junte-se a isso a ausência de planejamento e a total falta de capacidade ou orientação para inovar, que contribuem para que nossas micro e pequenas empresas tenham apenas a metade da produtividade de suas congêneres de países desenvolvidos. A inovação não acontece devido à escassez de conhecimentos e, também, porque o Brasil protege o seu mercado interno.

Uma vitória do Brasil na Copa do Mundo neste ano não pode anestesiar a sociedade de todas as outras competições que temos perdido de goleada para o resto do mundo.

Pelo menos por enquanto suspendemos o discurso de que, com a queda na taxa de juros, os investimentos produtivos no Brasil seriam favorecidos. Os juros altos estão de volta. A falta de planejamento de longo prazo por parte do governo e a agenda política com eleições a cada dois anos transformaram a gestão pública no Brasil numa corrida de obstáculos. Os interesses corporativistas das diversas instâncias de poder impedem o esforço conjunto para realizar uma série de reformas que, se já eram urgentes há 20 anos, se tornaram cruciais hoje. Parte importante dessa desarticulação é originada também pelo setor privado.

Pode até ser que o Brasil seja vencedor da Copa do Mundo neste ano – certamente um anseio de todos os brasileiros. Cabe, porém, a reflexão de que essa vitória não pode anestesiar a sociedade de todas as outras competições que temos perdido de goleada para o resto do mundo. O Brasil é paradoxalmente um país caro, inclusive para os nossos visitantes que virão de maneira concentrada no período do campeonato mundial de futebol. Os visitantes de países desenvolvidos pagarão, em média, duas vezes mais do que costumam gastar no seu país de origem pelos mesmos produtos. Considerando que a renda per capita dessas economias é quatro ou cinco vezes maior do que a nossa, em termos relativos o brasileiro paga de oito a 10 vezes mais do que os nossos adversários nos negócios e no futebol.

E por falar em turistas, depois de 14 anos estacionado no patamar de 4,5 milhões a 5,5 milhões de turistas estrangeiros ao ano, em 2013 logramos atingir 6 milhões. É um número importante, mas em termos comparativos é 1/4 dos turistas recebidos pelo México (23 milhões), 1/5 dos visitantes do Reino Unido (30 milhões), 1/7 dos visitantes da Itália (42 milhões) e 1/10 dos turistas que chegam anualmente à Espanha (60 milhões).

Esse foi um tema recorrente na Feira do Empreendedor promovida pelo Sebrae-SP em fevereiro. Com uma organização muito elogiada pelos visitantes, o evento superou 80 mil visitantes, 30% acima das estimativas. Por meio de um trabalho dedicado do sistema “S” para o treinamento e desenvolvimento do trade turístico, nossa grande expectativa é de que o legado das competições seja a própria hospitalidade, simpatia e alegria dos brasileiros, promovendo aos visitantes estrangeiros um movimento contínuo de novas e repetidas experiências positivas. O país deve ter como ambição alcançar, em prazo inferior a dez anos, três vezes mais visitantes. Para tanto, devemos galgar vários patamares no ranking da competitividade.


Adolfo Menezes Melito é presidente do Conselho de Criatividade e Inovação da FecomercioSP.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 10/03/14, pág. 31.