Legislação
10/03/2026Articulação empresarial sensibiliza parlamentares pela preservação da negociação coletiva no debate sobre escala 6x1
Durante seminário da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, em Brasília, FecomercioSP aponta riscos econômicos de uma mudança em contexto eleitoral
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho deve considerar as peculiaridades de cada atividade e setor, observando os acordos coletivos. Essa foi a defesa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) durante participação em seminário promovido pela Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo (FPE), em Brasília, nesta terça-feira (11), que debateu as Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que propõem o fim da escala 6x1.
A FecomercioSP foi representada por Dan Guinsburg, vice-presidente do Conselho do Comércio Varejista da Entidade e presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Taubaté. Em sua fala, ele afirmou que o debate sobre a redução da jornada é válido, mas precisa ocorrer de forma individualizada em cada setor, por meio da negociação coletiva — instrumento legítimo e capaz de tratar dessa complexidade.
“É perfeitamente possível fazer essa adequação. As empresas analisam sua produtividade, avaliam como mantê-la e verificam de que forma podem ajustar as jornadas. As convenções coletivas são justamente o instrumento que permite isso e possibilita, por exemplo, que setores como o Turismo abram em feriados e atendam o público”, afirmou.
Na mesma linha, o professor André Portela, da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP), sugeriu que, no curto prazo, possa haver uma redução, desde que ocorra por meio de negociações coletivas, e não por uma PEC ou projeto de lei, como se discute atualmente no Congresso.
De modo geral, assim como a FecomercioSP, as entidades empresariais também defendem que o debate avance dentro do rito tradicional, com análise nas comissões da Câmara e do Senado e participação dos setores produtivos, evitando que a discussão seja influenciada pelo calendário eleitoral.
Os parlamentares Joaquim Passarinho (PL/PA), Hugo Leal (PSD/RJ) e Luiz Gastão (PSD/CE) recepcionaram entidades no seminário da FPE
Ganho de produtividade deve vir antes da redução da jornada
Outro ponto destacado no seminário da Frente Parlamentar foi a necessidade de elevar a produtividade antes de se discutir a redução da escala ou da jornada de trabalho.
O deputado Luiz Gastão (PSD/CE) sugeriu que a jornada de trabalho seja reduzida para 40 horas semanais de forma escalonada. Também salientou, em linha com as entidades, que a mudança ocorra por meio de acordos coletivos, e não por lei. Para o parlamentar, o texto pode incorrer em inconstitucionalidade, pois “ao proibir a escala 6x1, você tira o direito da pessoa de escolher trabalhar”, afirmou.
O deputado ressaltou, ainda, que a PEC 221/19, em discussão na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, não será votada de imediato. Segundo ele, o relator da proposta, deputado Paulo Azi (União/BA), deverá ouvir os setores envolvidos antes de submeter a admissibilidade da PEC à votação.
De qualquer modo, Gastão argumentou que deveria haver uma compensação às empresas, com redução de impostos como contrapartida à diminuição da jornada.
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Impactos econômicos
Outro ponto de preocupação que a FecomercioSP tem levado às frentes parlamentares são os reflexos econômicos da proposta. Cálculos da Entidade indicam que, caso aprovada, a medida elevaria o custo do trabalho em 22% no Brasil.
Levando-se em conta que eventuais aumentos reais sobre a folha de pagamento promovidos por negociações coletivas costumam oscilar entre 1% e 3%, no máximo, e que seus efeitos atingem uma massa relevante de trabalhadores, essa elevação abrupta seria considerada inviável— especialmente para as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).
O efeito para esses negócios seria significativo, considerando que são eles que mais pagam tributos, têm menos recursos para se manter e, ainda assim, geram pelo menos 1 milhão de empregos por ano, segundo o Sebrae. Caso a proposta se torne lei, a estimativa é de que cerca de 1,2 milhão de vagas sejam eliminadas já no primeiro ano, o que poderia levar a uma queda de até 6,2% no Produto Interno Bruto (PIB).
Esses riscos foram apontados pelo empresário Ivo Pinfildi Junior, diretor da FecomercioSP e presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Catanduva.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) também apresentou dados sobre os impactos das mudanças propostas nas PECs que tratam da escala 6x1. Segundo Fábio Bentes, representante da entidade, um aumento de 1% no custo da folha de pagamento do comércio representa um repasse potencial de até 13% nos preços ao consumidor final. “Se as empresas deixarem de lucrar, elas deixam de existir. Se reduzimos a jornada de trabalho e encarecemos o custo do trabalho, consequentemente aumentamos a informalidade no Brasil”, alertou.
O evento contou com um público de cerca de 120 pessoas, entre deputados e representantes de entidades dos setores da Indústria, Comércio, entre outros.
A FecomercioSP tem participado de todas as frentes de debate sobre o tema em Brasília. No último dia 3 de março, a Entidade esteve em reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária, ocasião em que assinou o Manifesto pela Modernização da Jornada de Trabalho no Brasil, ao lado de uma centena de representantes do setor produtivo do País.
O documento elenca quatro prioridades: a preservação dos empregos formais; a produtividade como base para gerar desenvolvimento social e sustentabilidade econômica; a diferenciação por setor e o uso da negociação coletiva para ajustes de jornadas e salários; e a promoção de debates técnicos aprofundados — além de governança no diálogo social sobre esse tipo de mudança.
Abaixo, as entidades que participaram do seminário da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo:
Unecs — União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços
Abrasce — Associação Brasileira de Shopping Centers
FecomercioSP — Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo
FGV/Eaesp — Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas
CACB — Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil
CNC — Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Fiep — Federação das Indústrias do Estado do Paraná
Firjan — Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro
CNA — Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
CNT — Confederação Nacional do Transporte
CNI — Confederação Nacional da Indústria