Editorial

29/10/2018

Do spam às notícias falsas, por Cristina Tardáguila

Diretora da Agência Lupa fala sobre a importância de ensinar as pessoas a reagir com certo ceticismo diante de uma “notícia” recebida

Do spam às notícias falsas, por Cristina Tardáguila

Diretora da Agência Lupa ressalta que "news literacy" é uma ferramenta para combater as "fake news"
(Arte/Tutu)

Por Cristina Tardáguila 

No fim da década de 1990, o grande bicho-papão da internet era o spam. Aqueles e-mails que diariamente entupiam nossas caixas de entrada, oferecendo viagens paradisíacas, remédios para emagrecer e descontos apelativos para compra de produtos que jamais usaríamos. Lixo virtual que atrapalhava a leitura dos correios eletrônicos verdadeiramente importantes. Em geral, os spams traziam links e botões que nos remetiam a sites capazes de sequestrar dados pessoais e, por exemplo, clonar cartões de crédito.

Hoje, o que incomoda na internet são as notícias falsas. A boataria que vem pelas redes sociais e pelos aplicativos de celular. “Notícias” comumente acompanhadas de vídeos, fotos e áudios. Um novo tipo de lixo virtual que, assim como os spams, busca dialogar com nossos desejos, crenças e gostos atrás de um clique ou um compartilhamento.

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Então, se há paralelos entre os spams e as fake news, se ambos estão na esfera virtual, atrapalham o acesso à informação de qualidade e usam técnicas de sedução parecidas, por que não nos debruçamos sobre as soluções usadas lá atrás para combater as fake news?

Na época em que os spams reinavam, três forças da sociedade se uniram contra eles. A imprensa noticiou sua existência e seu impacto corrosivo. Os parlamentares criaram leis como a que tornou obrigatório o campo de descadastramento ao pé dos correios eletrônicos de caráter comercial. As empresas de tecnologia criaram artifícios como filtros, caixas e abas especiais para que os spams ficassem longe dos nossos olhos, cada vez mais inócuos e invisíveis.

Por que não repetimos a dose? A imprensa ficaria responsável por apontar e desmontar as fake news. O fact-checking, esse modelo de jornalismo que existe nos Estados Unidos há quase 30 anos e que busca checar o grau de veracidade das informações que circulam, precisaria ganhar mais espaço e protagonismo. Quem sabe chegar à televisão?

E que tal se deputados e senadores se juntassem para tornar obrigatório o ensino de news literacy nas escolas e universidades do Brasil? News literacy, mais um anglicismo sem boa tradução para o português, é essencialmente a capacidade de o indivíduo reagir com certo ceticismo diante de uma “notícia” recebida – seja por meios físicos, seja por meios digitais. A capacidade de respirar e pensar criticamente sobre aquilo que leu, viu ou ouviu na internet, antes de passar adiante como se da verdade se tratasse. E isso precisa ser trabalhado desde cedo. A partir da escola.

Desde abril de 2017, a Agência Lupa, empresa de checagem de fatos que dirijo há três anos, dedica-se a educar cidadãos para que eles próprios chequem a veracidade das “notícias” que recebem. Em 12 meses, tivemos mais de 3 mil alunos espalhados por todo o País. No segundo semestre de 2018, o LupaEducação fará uma turnê de news literacy em escolas de ensino médio públicas e privadas. Queremos mostrar aos adolescentes de 16 a 18 anos que é rápido e fácil colocar à prova uma foto. Queremos pontuar que textos antigos têm sido requentados nas redes como se de hoje fossem. Queremos destacar que os produtores de notícias falsas costumam usar URLs bem estranhas para conquistar um clique e que dificilmente têm em seus sites uma seção do tipo “quem somos”.

E o que podem fazer as plataformas digitais? Podem mobilizar desenvolvedores para dar alcance e escala ao news literacy. Em março deste ano, a americana Campbell Brown, atual diretora de parcerias em notícias do Facebook, veio ao Brasil para falar sobre o que a plataforma de Mark Zuckerberg vem fazendo para combater às notícias falsas. News literacy para crianças e jovens foi um dos tópicos que listou.

*Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa
Artigo publicado na revista Problemas Brasileiros, edição especial de setembro de 2018.