Economia

14/07/2017

Precisamos de incentivos para prevenir a corrupção e não apenas punir os corruptos, defende Anthony Pereira

Em entrevista ao UM BRASIL, presidente do King’s Brazil Institute reflete sobre a participação da sociedade civil na política

Precisamos de incentivos para prevenir a corrupção e não apenas punir os corruptos, defende Anthony Pereira

“O cidadão responsável vai votar e cobrar depois”, afirma Pereira
(Foto: TUTU)

É importante tentar substituir o sistema atual por um novo, que dê incentivos para prevenir a corrupção e não apenas para punir os corruptos depois que os recursos já foram desviados, defende o cientista político e presidente do King’s BraZil Institute, Anthony Pereira, em entrevista ao UM BRASIL. “Um passo importante, além da Lava Jato, é uma reforma nos sistemas partidário e eleitoral, para incentivar os candidatos a fazer uma campanha mais honesta. Não é suficiente condenar etica e moralmente”, completa.

Sobre o legado da operação Lava Lato, ele afirma que é cedo para tirar conclusões. Para ele, todos gostariam que as instituições do Estado democrático de direito prevalecessem, mas isso também depende da reação da sociedade civil. “Se o povo fica passivo e não reage nas urnas, discriminando o político corrupto, as práticas podem se repetir”, diz.

Para Pereira, o atual sistema político do Brasil, com presidencialismo de coalizão, custa demais. Pequenos partidos, alguns deles com menos de 1% do voto popular, negociam e recebem algo em troca do apoio, como ministérios ou gastos no orçamento federal. “Diminuir o número de partidos para uma quantidade mais negociável diminuiria o custo de ter uma maioria no Congresso. É um bom momento para o Brasil refletir sobre isso.” 

Pereira enxerga as manifestações de rua no Brasil, que tiveram seu auge no ano de 2013, como um reflexo do choque entre expectativas dos brasileiros e serviços promovidos pelo Estado. Nos dez anos anteriores a esses protestos, houve crescimentos do PIB per capita e do salário médio, mas a qualidade dos bens públicos (transporte, saúde, entre outros) não acompanhou essa alta. “Esse choque criou o clima de inconformismo que gerou as manifestações. Os ganhos do mercado eram claros, mas o Estado não estava oferecendo a contrapartida”, afirma o entrevistado.

Esse tipo de manifestação social colabora também para mudar a imagem do Brasil no exterior, segundo ele. De local festivo, turístico, o País passou a ser visto como mais sério, justamente pela cobrança dos cidadãos por uma qualidade da política e dos serviços públicos. “Por causa da mudança interna, a visão das pessoas de fora está mudando também.”

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Dados oficiais sobre investimento direto estrangeiro no Brasil em 2016 colocam a Nação como um dos países com maior investimento estrangeiro no ano. “Isso mostra que, apesar de todas essas dúvidas, além do medo e da instabilidade sobre a corrupção no Brasil, ainda há uma percepção de que é um mercado dinâmico com capacidade de crescer.”

Pereira também comenta a relação entre sociedade e políticos: para ele, o mais importante é ter um eleitorado responsável por suas escolhas. “Atualmente, as pessoas votam em alguém e, uma semana depois, esquecem quem foi e começam a criticar os políticos, dizendo que são sempre os mesmos e iguais”, explica. “O cidadão responsável vai votar e cobrar depois.”

Acerca de candidatos de fora da política que visam a cargos públicos, como Donald Trump, o entrevistado se mostra receoso. “Até entendo o apelo e o charme dos outsiders”, afirma. Segundo ele, no entanto, o engano desse discurso é que qualquer outsider sendo eleito vira um político profissional que não necessariamente vai ser diferente dos demais. “Preparação é importante.”

Confira a entrevista completa: